Autores Data 22 de Setembro de 1995 Secção O Detective - Zona A-Team [247] Competição Problema nº 8 | Convívio do Minho Publicação Jornal de Almada |
DOIS COPOS DE BRANDY H. Sapiens 1 O
chefe André abriu a porta e enfrentou a intensa luminosidade exterior. Do
alto de um céu claro o sol aquecia violentamente toda uma vastidão
descampada, chão daquela casa vê-lha e esquecida onde vivera e acabara de
morrer o mestre Barros, modelador de argilas e retirado do mundo. O
adjunto Etelvino juntou-se-lhe na soleira da porta e fechou os olhos
ofuscado. –
Chiça, minha mãezinha. Dá para fritar ovos! Atreveram-se
a uns passos no terreiro escaldante em frente da casa e olharam em volta: uma
árida planura de vegetação rasteira e ressequida. Da mancha amarelada emergiam
algumas árvores de pequeno porte, espalhadas, de perfil contorcido, existindo
à custa de teimosia e sofrimento. Um mundo tortuoso, exangue e terminal,
palco desolado para um crime abominável. Silêncio
opressivo antes de o chefe André estender os braços e apontar para longe. –
Lá em baixo, veja Etelvino, os postes! – o seu espírito rectilíneo,
estruturado em simetrias e perpendiculares alegrava-se ao descortinar a
perfilada linha de postes rigorosamente plantados a espaços regulares –
Fazem-me falta os ângulos rectos – murmurou. E
o adjunto Etelvino: –
Ah! Os postes, claro, seguem a estrada e lá vão eles. Nem um se digna vir
nesta direcção. Também o velho nunca quis telefone. Era um troglodita. Voltaram-se,
a olhar a casa comprida, escura, rochosa e solitária, como a carcaça de um
monstro pré-histórico jazendo sob a luz crua do Sol impiedoso. –
A seca – disse o chefe André lançando um olhar abrangente – o deserto. Regressaram
a casa, à frescura das grossas paredes de pedra e à pobreza severa do seu
interior onde, tirando um pequeno rádio a pilhas todo o escasso recheio
poderia datar do século dezanove. 2 Lourenço
Matias, na qualidade de presidente da Junta foi convocado para uma reunião, a
fim de se concertarem ideias acerca do David Peixeiro, que estava na lista
dos suspeitos e era personagem geradora de opiniões controversas. Sobre a
matéria teceu o autarca abundantes considerações que, resumidas ao essencial,
acabaram assim redigidas nos apontamentos do chefe André. –
«Na juventude fora um bargante de primeira apanha em constantes quezílias com
a Guarda e forçado a ir duas ou três vezes ao banco do Tribunal e outras
tantas ao do hospital. Depois de cumprida a tropa lá assentou os ânimos e
passou a ajudar o pai na venda ambulante de peixe, mas já a ruminar uns
projectos ambiciosos. O pai montara o negócio de correr os povoados com um
prestável burrico carregando caixotes de sardinha salgada. Ambos – lado a
lado – tinham passado as respectivas vidas neste vai e torna, solidários e
resignados. O
David não era homem para aguentar aquele ritmo por muito tempo e não se sabe
o que teria acontecido, se o pai, velho e gasto, não tivesse morrido na
altura certa. As
economias do defunto saltaram então do buraco e pouco tempo depois o David
surgiu tripulando uma carrinha equipada para o efeito a vender peixe fresco
que ia buscar à costa duas vezes por semana e distribuía pelas aldeias em
grandes acelerações e alegres toques de buzina. O
rapaz revelava-se trabalhador e fazia andar o negócio. Havia apenas o senão
de ir ganhando uma certa inclinação para estacionar o veículo à porta de
bares e tabernas, bem como em outros locais intermédios onde lhe era possível
lavar a garganta das irritantes poeiras da chameca. Ora
o casarão do Mestre Barros era, sabia-se, uma dessas escalas intermédias. E
havia insinuações veladas de que o David lá poderia ter estado, nessa trágica
manhã de quinta-feira. Rumores esses que ele negava, gritando a sua inocência
com fúria e grossas palmadas no peito.» 3 O
verdadeiro nome do infeliz era Teodoro Domingues mas, devido à paixão que
tinha pela olaria, ficara logo conhecido pelo cognome de Mestre Barros.
Chegara ali dois anos antes, já entrado nos sessenta, guiando um carro cheio
de mossas e ficara-seduzido pelo silêncio e pelo isolamento. Vinha fugido a
Balbúrdias e com a ideia de aplicar os seus tempos de reformado no estudo
prático da cerâmica antropomórfica da idade do bronze. Comprara
o velho casarão acenando um nutrido maço de notas que espantara os anteriores
proprietários. Depois mandara erguer um forno anexo e puzera-se a amassar o
barro, abundante nas imediações. Vivia sozinho. Recusara mesmo a ideia de
arranjar um cão alegando que a inteligência e demais qualidades dessas
criaturas o envergonhavam, quando as confrontava com as suas próprias
malvadezas e burrices. Era
às sextas-feiras que interrompia a produção de vasilhas com forma de mulher
obesa, para vir à vila abastecer-se do necessário para outra semana de solidão.
Achega
do proprietário do Mercado Maravilhas: –
Levara sempre duas ou três garrafas de brandy, pão, muito vinho tinto – do
melhor, pouca mercearia, conservas, petróleo para iluminação e, mais
espaçadamente, lâminas para barbear e pilhas para o rádio. - Puxava pelas
notas e, zás, pagava sem discutir. D.
Ivone Vale, gerente da Pensão Carminda, explicou depois a sua parte, sorrindo
sempre, condescendente, com ar de quem conhece bem as fraquezas da
humanidade. –
Tínhamos um contrato: lavagem de roupa, banho semanal e uma refeição bem
servida, confeccionada só para ele, com a criada paramentada especialmente
para o atender. Costumava dizer que a vida é uma anedota mas que é preciso
beber uns copos para se perceber a piada. Era uma maravilha de pessoa, sendo
pena que tivesse os miolos bastante amolecidos… A pinguinha, meu caro senhor.
– concluiu D. Ivone sem deixar de sorrir. Três
pessoas tinham acesso frequente ao seu isolamento: o David Peixeiro, o
carteiro Maurício e o Tralhão, seu ajudante nas artes da cozedura do barro. Fora
Maurício – que naquela manhã parara a motorizada à porta do casarão para
entregar uma carta – quem o encontrara estendido, morto, com o crânio
rebentado e muito sangue no soalho esburacado. Não longe do corpo uma mancha
doméstica, de partir lenha, não escondia a sua intervenção no acontecimento. 4 O
carteiro Maurício era homem para 35 anos, corado, com um olhar muito vivo e
matreiro. Da história que contou, com bastante entusiasmo e numerosos
apartes, ficaram as seguintes informações: –
Eram aí umas 10 horas. Parei porque tinha uma correspondência para ele.
Chamei, não vi ninguém, fui entrando. Dei logo com o Mestre estirado e cheio
de sangue. Pus-lhe a mão e ainda o corpo estava quente. Caramba! Eu devo ter
chegado pouco tempo depois de os bandidos terem saído, por essa razão e
porque na mesa estavam dois copos de brandy ainda com bocaditos de gelo a
boiar. Ora eu acho, e digam-me se estiver errado – que, com o calor que tem
estado, as pedras de gelo derretem de todo em vinte minutos, meio hora no
máximo. Por isso, cá para mim, o homem estava morto há menos de meia hora. O
chefe André anotou estas importantes declarações e ficou a coçar a orelha. –
Certificou-se bem do tamanho das pedras de gelo? –
Exacto. Embrulhei a mão no lenço para não estragar as marcas que lá houvesse
e peguei num dos copos para cheirar o conteúdo. Brandy, claro. Os bocados de
gelo eram do tamanho da unha do dedo mindinho. Ainda chocalhavam nas paredes
do copo, sabe como é… –
E depois? –
Pousei o copo e voltei à vila a toda a velocidade a chamar a Guarda. O
sargento veio logo no jipe atrás de mim. A ir e vir nem passou meia hora.
Nessa altura o gelo tinha desaparecido mas o brandy ainda estava bem frio,
assim como os copos. –
O sr. Maurício às vezes parava lá, mesmo sem ter cartas para entregar… O
carteiro baixou os olhos e limpou a testa com um alvíssimo lenço. –
Era. Mas só à vinda do meu giro, pela 1 hora da tarde. Falámos um bocado, ele
explicava-me as caçoilas e as bonecas que fazia, bebíamos um copo de vinho…
Bom. Às vezes uma garrafa inteira, para ser sincero. O
chefe André abanou a cabeça, tolerante com a sede que atormenta os viventes
naquelas terras afogueadas. –
Nessas visitas encontrou alguma vez o David Peixeiro? –
Lá em casa do Mestre? –
Sim. –
Lá dentro. Nunca. O David sai para a estrada muito antes de mim. Mas algumas
vezes ao passar vi a carrinha dele no terreiro da casa. E não era para vender
peixe… –
Acha que eles eram amigos? Maurício
reflectiu um bocado. –
Amigos não direi. Mas entendiam-se na bebida. E sem querer ser má língua,
acho que – cada qual a seu modo – eram ambos meio malucos. 5 No
ambiente fresco da Adega Universal, o adjunto Etelvino, bebida a segunda
cerveja, estava a ordenar as folhas soltas que o Chefe redigira, no seu
estilo floreado. Ia lendo e comentando uma ou outra frase: –
A Guarda revistou bem a casa e nada de aparecer o dinheiro do velho.
Homicídio com roubo ou roubo com homicídio… Mais coisa, tal e tal… Naquele
dia não foi assinalada qualquer viatura forasteira na estrada que passa perto
do local do crime. Muito bem. Ora aqui: o Taralhão – folha em branco. Que é
isto Chefe? Não há nada sobre este meco? O
chefe tinha desapertado a gravata e o colarinho e estava sentado em silêncio,
de olhos fitos num copo que se achava na sua frente sobre a mesa. À
pergunta do auxiliar, inspirou fundo e explicou: –
Esse Taralhão, é um pobre diabo que vive a uns dois quilómetros da casa do
morto. Fornecia-lhe
regularmente carradas de lenha que ele utilizava para aquecer o forno onde
cozia aquelas canecas indecentes e também o anacrónico fogão que usava para
cozinhar as suas refeições neolíticas. É um simples, um apoucado da “pinha”
que gostava de ajudar a acender o forno. Um primário. Tomei-lhe as impressões
digitais assim como aos outros dois e esperemos que nos informem quais delas
aparecem nos copos que foram para o laboratório. Dito
isto concentrou-se na contemplação do copo cheio de água onde flutuavam
alguns cubos de gelo. Etelvino riu-se: –
Está a controlar o tempo que demoram a derreter? O
chefe André soltou um suspiro e esticou os braços num esboço de
espreguiçadela. –
Nada disso. Estou só a antegozar o prazer de a beber fresquinha daqui a um
bocado. Sobre o nosso caso, mesmo antes do relatório da dactiloscopia, tenho
cá a impressão que já descobri quem manejou a machadinha. E sabe porquê, meu
velho? |
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© DANIEL FALCÃO |
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