Autor Data 25 de Abril de 2004 Secção Policiário [667] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 8 Publicação Público |
UM CASO CURIOSO Inspector Fidalgo Apesar de toda a sua
experiência, ainda há casos que conseguem intrigar o Inspector
Fidalgo, ao ponto de o obrigar a interromper umas curtas férias para dar uma
ajudinha à polícia local. Tudo se passou numa aldeia
de praia bem portuguesa, de areal extenso, onde o Inspector
Fidalgo passava horas e horas em prolongados passeios à beira-mar, uma das
suas actividades predilectas. Naquela madrugada do
primeiro dia do mês, algo de diferente aconteceu, capaz de se tornar o
acontecimento social do momento: o jovem chamava-se Afonso, nascera ali e por
todos era chamado “Burrica”, desde sempre. Procurava o sossego e não se dava
praticamente com ninguém. Apareceu morto, aparentemente devido a queda, à
porta do principal estabelecimento da aldeia, a mercearia do senhor Silva. Foi ele mesmo quem deu com
o corpo do rapaz, eram quase duas da manhã, quando saíu
do estabelecimento, depois da costumeira maratona mensal para acerto das
contas. Desta vez, contou, saía do
estabelecimento pelas duas horas, acabara de fechar a luz e a porta e
preparava-se para ir para casa, a escassos metros do estabelecimento, quando
deparou com um corpo estendido no passeio. Pensou tratar-se de um qualquer
embriagado, porque por ali o dia do pagamento do salário originava frequentes
consumos exagerados de bebidas alcoólicas. Só se surpreendeu realmente quando
verificou que o jovem estava ferido na nuca, tendo sangrado abundantemente.
Ao tentar determinar se estava muito mal, virou-o, mas logo notou que a cara
não estava em boas condições e que era impossível que estivesse vivo. O Inspector
Fidalgo viu o corpo e tirou alguns apontamentos enquanto a polícia local
fazia o seu trabalho e requisitava a colaboração dos peritos da Judiciária,
que iriam demorar algum tempo. Era um moço de boa estampa, musculado e
aparentando força. Envergava uma blusa de manga curta de cor azul e uns “jeans” algo gastos. Completavam a indumentária uns ténis
que já tinham visto melhores dias. Procurou algum indício dissimulado,
percorreu com o olhar penetrante à luz de uma potente lanterna, as mãos da
vítima e as unhas surpreendentemente limpas e cuidadas, atendendo à sua actividade no mar, em busca de algum resíduo que lhe
pudesse dar uma pista… Decididamente era muito mais fácil nos livros
policiais… Entretanto, já no ambiente
acolhedor do estabelecimento do senhor Silva, enquanto aguardavam a chegada
dos técnicos, este mostrava-se transtornado, queimando cigarros atrás de
cigarros e dizia que nunca naquela aldeia se vira um caso semelhante. Na sua
opinião, o “Burrica” só podia ter tido um acidente, se calhar tropeçara no
passeio e caíra desamparado com a cara no chão e rodara depois para bater com
a nuca no degrau de qualquer das casas. Nunca por ali houvera violência de
qualquer espécie e o “Burrica” era um moço tão recatado, não bebia…
Praticamente só com ele, Silva, é que o moço falava mais, porque, tal como
todos os outros que viviam do mar naquela praia, recebia o salário no dia 28
de cada mês e era nessa mesma data, quase sempre à noite, que ele ia ao seu
estabelecimento liquidar a dívida do mês. Finalmente chegados os
técnicos, tudo correu com a rapidez e eficiência habituais: as fotos foram
tiradas, as recolhas de amostras e a busca do local, tudo foi meticuloso. Não
havia dinheiro nem carteira, nem um simples papel, nem uma chave de casa,
absolutamente nada. De diferente apenas a assinalar que o corpo estava
deitado em cima de uma beata de cigarro que ainda estava a arder quando
aconteceu a queda porque deixou as suas marcas, quer na blusa, quer no corpo
da vítima. E era de um cigarro da mesma marca dos que o senhor Silva
consumia… – Senhor Inspector, o “Burrica” também fumava muito, era meu
cliente e sei bem… E foi buscar um papel
avulso onde se lia uma imensa lista de compras em dias assinalados. No topo
lia-se, a tinta azul, “Afonso”. Em quase todos os dias, havia maços de
tabaco, às vezes dois e três, da marca encontrada. Fidalgo ergueu-se e pegou
no maço das folhas onde estavam apontados os débitos de quase todos os
habitantes da aldeia e percorreu-as calmamente. Dias depois chegaram os
resultados laboratoriais que pouco ou nada adiantaram. Mas também não eram
necessários. O Inspector Fidalgo já decifrara o
caso… |
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© DANIEL FALCÃO |
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