Autor Data 10 de Abril de 2020 Secção Competição Torneio
"Solução à Vista!" – 2019 Prova nº 10 Publicação Audiência GP Grande Porto |
SMALUCO E A MATANÇA NUMA TERRA EM FESTA Inspetor Boavida Era domingo de páscoa e dia
das mentiras, mas a notícia era verdadeira. Natália Vaz, a namorada de Smaluco, seria libertada na manhã do dia seguinte,
cumpridos que foram mais de dois terços da pena a que foi condenada. Quando
abandonou o Estabelecimento Penal de Tires, ela vivia um misto de sensações
contraditórias. A felicidade pela liberdade alcançada era contrariada pelo
conhecimento de um crime que fora conjeturado na cadeia e que se sentia
impotente para impedir ou provar. O velho detetive, o seu mais que tudo,
percebeu que algo não estava bem e questionou-a. Natália não lhe escondeu
nada. Durante boa parte do tempo em que esteve presa, ela fez serviço na
biblioteca da prisão e foi lá que teve conhecimento, há poucas semanas, da
preparação de um crime encomendado por alguém de fora do espaço prisional a
duas perigosas criminosas que concluíram as respetivas penas e em breve serão
libertadas. Caída no chão da
biblioteca, junto a uma zona da estante dedicada a livros de turismo
nacional, estava uma folha de papel que continha apenas estas datas: 5, 6 e 9
de junho; 7 e 8 de julho; 4 e 6 de agosto; e 4, 5 e 7 de setembro. Natália
acabara de memorizar as datas, quando Sofia “Espertinha” entrou apressada e
procurou a folha que deixara esquecida na biblioteca. Deitou um olhar desconfiado
a Natália, a quem disse que era melhor ficar caladinha, pegou no papel e saiu
da mesma forma ágil como havia entrado. A amada de Smaluco,
que não é pessoa de se deixar atemorizar por nada deste mundo, arranjou
depois maneira de se aproximar da “Espertinha” quando esta estava no pátio de
recreio em sussurros com Manuela “Sabichona”, a tempo de ouvir a primeira
dizer: Decora as datas e desfaz-te do papel. Amanhã vem cá a Madama e
ficaremos a saber em qual desses dias executamos a matança e em que terra em
festa junto ao mar. No dia seguinte, Natália
Vaz conseguiu ter acesso à sala de visitas e viu uma “socialite” que é notícia
frequente nas páginas das revistas cor-de-rosa à conversa com Sofia e depois
com a “Sabichona”, em separado, e percebeu que “Espertinha” ficou apenas a
saber o mês da matança e “Sabichona” o dia. Posicionou-se depois
estrategicamente num discreto recanto da biblioteca, onde as duas criminosas
tinham por hábito conversar longe das vistas da maioria das presidiárias,
embora de forma muito cautelosa porque temiam que a leitura labial as
denunciasse no sistema de videovigilância. E ouviu mais ou menos isto: Sofia
disse que não sabia em que dia ia ter lugar a matança, mas tinha a certeza
absoluta que Manuela também não sabia. Ao que esta respondeu: Eu também não
sabia, mas agora sei. E Sofia ripostou: Agora que dizes isso, também eu sei
em que dia vamos executar a coisa. E digo mais. Já sei em que terra. Perante estes indícios de
que se preparava um crime, Smaluco prontificou-se
de imediato a investigar o caso, em colaboração com um antigo camarada da PJ,
mas Natália impôs-se e impediu-o de o fazer. O velho detetive ainda insistiu,
dizendo que resolveria o problema em minutos, depois de uma breve conversinha
musculada com a madame “socialite” e de um apertão convincente às duas
perigosas criminosas. Mas de nada valeu a insistência, porque a sua amada
mostrou-se irredutível. Segundo ela, aquela estratégia apenas servia para
alertar mandante e criminosas, que negariam tudo e abortariam a projetada
matança, saindo ilibadas da eventual acusação uma vez que não havia provas de
que estivessem a preparar qualquer atentado. Por outro lado, como não se
sabia quem era, ou quem eram, o alvo daquelas mulheres, o crime seria
cometido noutra data sem que houvesse alguma coisa que pudesse ligá-las a
esse acontecimento. Amuado, Smaluco
sentou-se na sua poltrona preferida a bebericar um uísque quase tão velho
quanto ele, resmungando palavrões impercetíveis, enquanto Natália Vaz
circulava impaciente por toda a casa perdida nos seus pensamentos. Até que,
de súbito, ela fez ecoar um grito que se terá ouvido em todo o quarteirão da
rua em que o casal tem morada: Eureka! Já sei em que data e em que terra o
crime vai ser cometido. Agora é só esperar pelo dia, seguir a Sofia
“Espertinha” e a Manuela “Sabichona” e apanhá-las em flagrante. Assim ninguém
morrerá e elas e a madame mandante não escaparão de certeza à prisão. Dito
isto, voltou-se para o seu velho companheiro e ordenou: Vá, anda daí comigo.
Vamos já participar o caso à PJ. E o detetive Smaluco
lá foi, atónito e submisso, atrás de Natália, sem fazer a mínima ideia de
como é que ela sabe o que diz saber. Mas não é só ela. Os leitores também sabem
o que Natália sabe, não é verdade?! DESAFIO AO LEITOR: Será que o leitor sabe
mesmo em que data e em que terra o crime vai ser cometido? Em caso
afirmativo, desenvolva essa teoria, sustentando-a com os factos disponíveis. |
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© DANIEL FALCÃO |
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