Autor

Inspetor Fidalgo

 

Data

8 de Outubro de 2020

 

Secção

Policiário [40]

 

Competição

Torneio Sábado Policiário 2020

Prova nº 9 – Parte II

 

Publicação

Sábado [858]

 

 

O INSPETOR FIDALGO E O IATE MISTERIOSO

Inspetor Fidalgo

 

Há muitos meses que o Alberto estava debaixo de olho.

A polícia tinha informações bastante seguras de que se tratava de um mediano passador de drogas, atuando numa zona de difícil controlo, por ser muito visitada por nacionais e estrangeiros.

Com uma vigilância à distância, tão discreta quanto possível, a polícia foi reunindo informações e indícios dos movimentos daquele pescador amador, que todos os dias se sentava no mesmo local, preparava as canas, o isco e por ali ficava horas e horas, numa pachorrenta sonolência.

Os agentes estavam a desesperar, dias e dias naquela monotonia, a olhar para um homem que parecia incapaz de fazer mal a uma mosca, fazendo a contagem das vezes que lançava o isco, das vezes que retirava alguma coisa, inventando jogos para se manterem minimamente atentos. Mas o que acontecia era que a paciência se estava a esgotar e os agentes destacados andavam à beira de um ataque de nervos.

Mas naquele dia, tudo se alterou.

O Alberto estava sentado no seu lugar de estimação, junto da Torre Vasco da Gama, a olhar em direção à ponte com o mesmo nome, seguindo as movimentações de três pessoas que percorriam um iate de boas dimensões, ali ancorado. À primeira vista, nada que despertasse suspeitas aos agentes, mas depois, um deles, colocado a jusante, a fazer, também, de pescador, notou que havia uma espécie de sinalética, um levantar e sentar, aparentemente sem sentido. Logo transmitiu a informação ao outro agente, situado mais para interior e a uma distância mais reduzida do Alberto.

O dia estava belíssimo, não havia rasto de nuvens nem de vento, o chamado dia perfeito para um bom passeio à beira-rio, seguindo o mergulho das aves e a discreta ondulação que ia levantando uma leve espuma, rio acima.

As movimentações das pessoas no iate começaram a indiciar que este se aprestava para levantar âncora e avançar em direção à foz do rio. Em poucos segundos apareceu uma espuma branca e o iate avançou, ligeiro.

O agente-pescador largou a cana, erguendo-se para ter uma melhor visão à passagem da embarcação, procurando reunir o máximo de informação. Foi nesse momento, ao aproximar-se mais da água, que viu dois embrulhos, a flutuar à sua frente. Desceu, lesto, e apanhou-os. Não era preciso grande esforço para deduzir que se tratava de tabletes de droga, como já vira inúmeras vezes e que estavam dentro de água há poucos minutos.

Já de posse das embalagens, ergueu os olhos e cruzou o olhar com as três personagens que passavam precisamente à sua frente. Ficou sem saber se o olhavam surpreendidos por o verem dentro da água ou por ele ter detetado algo que lhes era dirigido ou que acabaram de largar para outras mãos…

Rapidamente dirigiu o olhar mais para cima, a tempo de ver que o Alberto se aprestava para largar o seu poiso e sinalizou esse facto ao colega, que no entanto já estava bem próximo de Alberto e em posição para o deter.

O iate foi intersetado mais adiante, já depois de passar por baixo da Ponte 25 de Abril e a vistoria, de alto a baixo, não deu em nada, se bem que um dos tripulantes já tivesse uma longa história de tráfico.

Nos interrogatórios que se seguiram, o Alberto reafirmava a sua inocência:

– Olhe, senhor agente, eu sou um cidadão como outro qualquer, que apenas quer pescar. Sou pescador, vou para ali todos os dias, na maior parte das vezes nem apanho nada, mas passo o meu tempo…

– Você está bem conotado com o tráfico de drogas, meu caro. Sabemos que há muito tempo que lhe passam pelas mãos doses importantes de drogas e dinheiros. Temos muitas informações, está tramado. Faltava-nos o flagrante delito e ele aqui está. Se quer um conselho, é melhor confessar já!

– O senhor agente está equivocado. Eu não tenho nada a ver com isto de que me acusa. Estava a pescar, mais nada. Todos os dias vou para aquele lugar e não sei de mais nada.

– E o iate? Apanhámo-lo à saída do Tejo. Já sabemos tudo, é melhor que confesse já e nos poupe a todos o trabalho de ter de retirar coisas que já todos sabemos, não é verdade?

– Não posso confessar uma coisa que não é verdade e que não fiz…

O inspetor Fidalgo que assistiu ao interrogatório num canto escondido fez a retrospetiva da ação, verificando minuto a minuto, segundo a segundo, toda a cena. E concluiu:

 

 A – O Alberto pode estar envolvido e era o destinatário da droga enviada pelo iate;

B – Embora seja o destinatário da droga enviada pelo iate, Alberto não pode ser incriminado porque não há provas contra ele;

C – O Alberto pode estar envolvido naquele caso de droga, mas ela não veio do iate;

D – O Alberto não pode estar envolvido naquele caso de droga, nem a droga veio do iate.

© DANIEL FALCÃO