Autor Data 4 de Abril de 2010 Secção Policiário [976] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2010 Prova nº 4 (Parte I) Publicação Público |
NA ÚLTIMA FRONTEIRA Karl Marques –
Comandante, posso retirar o corpo? Mavock estava distraído,
o que era raro, muito raro, e não se apercebeu logo da pergunta… –
Comandante? –
Pode. A hora da morte é mesmo impossível de determinar? –
Lamento. Estavam
na enfermaria onde o exame indicara já causa da morte; não que houvesse
grandes dúvidas – fora por perfuração do abdómen, directamente
no coração. A arma do crime não fora encontrada. Mavock saiu da
enfermaria e dirigiu-se à ponte. Na sua cadência regular percorreu
rapidamente o percurso. –
Tenente Gomez, já me pode fornecer dados sobre a
arma do crime? –
Sim, comandante. –
Prossiga. –
Trata-se de um objecto, com pelo menos 8
centímetros de superfície cortante. Os dados disponíveis coincidem com três
armas registadas a bordo: uma Marsulan, uma Kiurtan e uma Tentyam. Eu
apostaria na Tentyam… –
Apostaria? –
Sim… – Gomez ficou baralhado, mas percebeu
rapidamente, Mavock não era o seu primeiro
comandante vulcano. – Chamo a atenção para o facto
da arma Tentyam se encontrar na posse de um Tentyam que já tinha tido um problema no passado com a
vítima. O
corpo fora descoberto pelas 20 horas, referência da nave, e no quarto pouco
se achara. A vítima viajava com pouca bagagem e escassos objectos
pessoais. Os
três portadores das armas estavam a bordo por razões diplomáticas, embora
nenhum tivesse esse estatuto oficialmente, representando civilizações que só
muito recentemente começaram a cooperar com a Federação. Os Kiurtan tinham evoluído a partir de lagartos e isso ainda
causava confusão a muita gente, espécies sensíveis que punham ovos. Os Marsulan eram fisicamente semelhantes aos terrestres e os
Tentyam destacavam-se sobretudo pelos seus grandes
pescoços. Já a vítima, um Scosselan, era de um
grupo ainda muito mal conhecido pela Federação pois, apesar de já dominarem a
capacidade de navegação espacial, até um contacto fortuito com a Federação
nunca haviam tomado contacto com o exterior do seu sistema. O indivíduo em
causa era conhecido por ser um cientista no seu planeta e a sua presença a
bordo relacionava-se precisamente com os contactos interplanetários com
outras espécies de seres sensíveis, pois, até agora, a vítima fora dos
maiores defensores de manter outras civilizações afastadas. Como
a aposta do Tenente Gomez conseguia ser a opção
mais lógica, Mavock dirigiu-se aos aposentos de Gyaff, o Tentyam. Mesmo porque Mavock sabia que tinha de ser rápido: por razões
diplomáticas não podia reter os três portadores das armas sem razões válidas
e faltava apenas cerca de uma hora para eles abandonarem a nave, na estação
espacial para onde a nave se dirigia. Mavock interrogou o Tentyam: –
Esteve no quarto da vítima? –
Estive de facto com ele no seu quarto. –
Entre que horas? –
Julgo que cerca das 18 horas. Por pouco tempo, no máximo 15 minutos. –
Para?... –
O meu Governo tinha-me instruído para encetar contactos com a civilização da
vítima. –
Como é que ele lhe pareceu? –
Curioso que me pergunte isso. Pareceu-me cansado e nervoso, até o aconselhei
a ir à enfermaria, mas a espécie dele não lida bem com a inteligência
artificial, e sendo o vosso médico um holograma… Parecia no entanto
satisfeito, pois conseguira finalmente resolver o problema inter-civilizacional da fórmula resolvente para qualquer
caso polinomial de expoente 7. –
Foi a última vez que o viu? –
Sim. –
E antes disso, onde estava você? –
Estava num bar na companhia de Passav e Suap, o Marsulan e o Kiurtan. –
Desde que horas? –
Cerca das 17 horas. –
Pode-me dizer se é portador neste momento da faca com que entrou a bordo? –
Não, não sou. Vendi-a a um Ferengi, Morg, durante esta manhã. Morg,
lamentou Mavock, já não se encontrava a bordo. Era
comandante da sua própria nave, já saíra e não se sabia para onde rumara.
Mesmo assim, Mavock contactou Gomez. Mavock olhou em volta.
Já conhecia essa característica daquela espécie, mas mesmo assim não esperava
um quarto tão desprovido de objectos. Seguiu-se
a visita a Suap, o Kiurtan. –
Esteve durante o dia de hoje no quarto da vítima? –
Não, não estive. –
Quando foi a última vez que o viu? –
A última vez que o vi? Vi-o no corredor, pouco passava das 18 horas. Tinha
estado em conversa com Gyaff, o Tentyam
e Passav, o Marsulan, num
dos bares, até por volta das 18 horas. Fui o primeiro a sair, mas o Tentyam, apercebi-me, seguiu-me quase de imediato pela
mesma porta poucos segundos depois. À saída do corredor encontrei o falecido
em conversa com o comandante Data. Mas não conversei com ele. –
Desde que horas estava nesse bar nessa companhia? –
Sensivelmente desde as 17 horas. –
Pode-me dizer se é portador neste momento da faca com que entrou a bordo? –
A minha faca desapareceu durante a minha estada aqui. –
Informou alguém do facto? –
Não o fiz. Não me pareceu útil. Mavock lamentou que o
comandante Data tivesse sido teletransportado para a sua nave ainda antes da
descoberta do corpo. Seguira em warp máximo para
uma missão junto dos Borg. Não seria possível
contactá-lo no tempo que tinha disponível. Mavock olhou em volta
pelo quarto. Alguns objectos pessoais, assim como
pinturas (a sua espécie não apreciava fotografias e tão pouco vídeos) de,
provavelmente, familiares. Seguiu-se
a visita a Passav. –
Esteve hoje no quarto da vítima? –
Sim, estive no seu quarto pelas 18h30. Ele tinha-me informado que o seu
Governo estava aberto e encetar relações diplomáticas com o meu povo. Ele
parecia-me bem. Descontraído e feliz por ir-se embora tão em breve. Foi a
última vez que o vi. Antes disso eu tinha estado na companhia dos
representantes dos Tentyans e dos Kiurtans, durante cerca de hora e meia, sensivelmente,
desde as 17 horas. Havia-me despedido deles poucos minutos antes de me
encontrar com o falecido… parece surpreendido? –
Surpreendido, eu? –
Sim… Em todo o caso, mais alguma questão? –
Sim, a faca com que entrou na nave, ainda a tem? –
Ah, não… Perdi-a ontem ao jogo para um Ferengi. Olhou
em volta… mais um que viajava com pouca bagagem. Um papel em cima da mesa, na
língua Marsulan: ‘0,1,2,3,4 há, 5,6,7,8,9,10… não’.
Ainda duas peças de artesanato tradicional do seu planeta de origem. Uma
representando a constelação onde fica o planeta Marsulan
e outra a representar uma cena de luta tradicional. Gomez contactou Mavock naquele momento. –
Comandante, confirma-se que Morg
abandonou a nave por volta das 19 horas, na posse de três armas: uma Tentyam, uma Kiurtan e uma Marsulan. Mavock seguiu até à
ponte de comando. Dentro de 15 minutos iam chegar à estação espacial. Mas ele
já sabia quem ia e quem não ia sair naquele momento. |
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© DANIEL FALCÃO |
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