Autor Data 5 de Agosto de 2012 Secção Policiário [1096] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2012 Prova nº 7 (Parte I) Publicação Público |
CRIME OU SUICÍDIO? Leopardo Era
um homem de estatura mediana, mas gordo. Vivia numa cabana que construíra na
orla do bosque a um quilómetro da aldeia. Não tinha amigos, mas era frequente
ser procurado por quem necessitava de conselhos ou por jovens que queriam
escutar as suas histórias. A
manhã rompera radiante de sol após uma noite que parecera querer desfazer-se
em água. Os caminhos enlameados eram o sinal do que tinha sido a noite. Maria
dos Prazeres, jovem franzina, percorria o caminho que da aldeia se dirigia à
cabana, deteve-se junto desta e bateu à porta. Não obteve resposta, voltou a
bater e, alguns segundos depois, notando que a porta apenas estava encostada,
empurrou-a. Ia entrar. Não o fez e voltando-se, desatou a correr para a aldeia. Uma
hora depois chegou ao local o capitão Isaías da GNR, acompanhado de alguns
subordinados. O capitão entrou; o recinto era um quadrado de três metros de
lado parcamente mobiliado, e imediatamente divisou, com os pés a um metro do
solo, o corpo que balouçava pendurado de uma trave do tecto
da cabana. De
costas para a porta, o capitão abarcou o recinto com o olhar. À sua direita,
junto ao ângulo formado pela parede que lhe ficava na frente e na lateral,
encontrava-se uma mesa e junto deste, três bancos-mochos com 50 centímetros
de altura. No ângulo diametralmente oposto, via-se um catre e um armário
toscamente construídos. No canto ao fundo à sua esquerda, escavado no solo,
havia um esconderijo onde foi encontrado um pequeno cofre metálico arrombado
e um pé-de-cabra. No canto esquerdo mais próximo da porta, caído sob o
cadáver, estava um banco igual aos que se encontravam junto da mesa. O
capitão dirigiu-se ao corpo. A corda era nova, tinha 15 milímetros de
espessura, passava por cima da trave e tinha a extremidade atada a um prego
espetado num poste. Servindo-se
de uma escada o oficial subiu para observar a corda. Viu que algumas fibras
estavam partidas numa extensão relativamente grande da corda. Reparou também
que, entalada entre a corda e a parte superior da trave, havia uma pequena
ripa de madeira; apurou-se, mais tarde, que fora arrancada, pela fricção da
corda, do barrote no lado do corpo. Isaías desceu e foi olhar o prego a que a
corda se encontrava presa. Teria uns 4 milímetros de espessura e
encontrava-se um pouco inclinado para baixo. Feitas
estas observações, o capitão foi postar-se junto da porta contemplando o
caminho que levava à aldeia, ao longo do qual a partir da porta e no espaço
de 50 metros, se viam várias séries de pegadas. Umas, imprimidas por uns pés
pequenos, dirigiam-se para a cabana. Outra série de pegadas idênticas
afastava-se da cabana. Neste caso era evidente que quem as deixara ia a
correr. Havia
outra série de pegadas afastando-se da cabana; eram bem maiores que as
anteriores e tinham uma particularidade: a marca do pé direito estava bem
nítida, mas do pé esquerdo apenas se divisava a parte da biqueira; perdiam-se
depois sobre a caruma dos pinheiros que ladeavam o caminho. O
capitão reentrou na cabana onde o legista o informou de que a morte ocorrera
entre as quatro e as cinco horas da madrugada. Nada mais tendo que fazer ali,
Isaías foi para a aldeia falar com Maria dos Prazeres. Disse que ia uma vez
por semana ver o velhote; ele nunca se queixava e, por isso, não sabia por
que teria feito aquilo. Hoje não era para lá ir, mas como a noite foi muito
má, foi para saber se ele estava bem. Quem o visitava todos os dias era o
João Coxo e o Tó Marreco. Convocados,
o Tó Marreco compareceu imediatamente. Era um individuo idoso, franzino, que
se deslocava apoiado a uma bengala e era acentuadamente corcunda. Interrogado
respondeu: “Costumo ir todos os dias ao bosque ver o velho, mas ontem os meus
ossos parece que adivinharam a noite que ia estar e não me deixaram sair de
casa. Nas suas conversas, o velho nunca falava da família nem da sua vida.” O
João Coxo estava ausente e só dois dias depois respondeu à convocatória. Era
um jovem musculoso, de 1,80 metros de altura e 80 quilos de peso. Apesar da
sua corpulência, a sua perna esquerda era mais curta que a direita e o pé
apresentava-se como se fosse um prolongamento da perna. O seu testemunho:
“Costumo ir todos os dias ver o bom velhinho, havia alguns dias que não ia,
estive fora. Nunca me falou da sua vida, mas tenho a certeza de que ele tinha
dinheiro escondido.” Não tendo mais diligências a fazer ali, o oficial da GNR deixou a aldeia, mas antes tomou uma decisão. Crime
ou suicídio? Qual a decisão do capitão? Ele estava certo ou errado na sua
decisão? Explique pormenorizadamente o seu raciocínio. |
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© DANIEL FALCÃO |
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