Autor

Marvel

 

Data

Outubro de 1981

 

Secção

Enigma Policiário [63]

 

Competições

II Volta a Portugal em Problemas Policiais e Torneio de Homenagem a Sete de Espadas

9ª Etapa | Viseu – Figueira da Foz – Leiria – Tomar – Abrantes

 

Publicação

Passatempo [85]

 

 

PESADELO PARA UM

Marvel

 

As costas da mão de Miguel atingiram-me em cheio o nariz, replicando ao insulto. Com o sangue, que logo espirrou, aconteceu o pesadelo. Recordo-me vagamente de ouvi-lo vociferar. A nuvem esbranquiçada que me reduzia a visão passou ao róseo e deste ao vermelho.

A minha fácil excitabilidade tudo logo baniu. Breve lutávamos na água enquanto o bote se afastava, as canas a flutuar perto.

Algo de demoníaco apoderara-se de mim, explicando os momentos de prazer sádico, real, que me impeliam a retê-lo dentro de água. Porque arrastei, depois, o cadáver para a areia? Ignoro-o. Mas ele ali estava. Afogado. Por mim.

Um vento gélido exorcizou a loucura que me toldava. Apercebi-me do pesadelo que vivia. Assassinara! A tanto me conduzira algo de fútil. Polícia. Prisão. Vida estragada. Mas porquê? Porque teria de ser assim? Afinal, bem vistas as coisas, não fora assassínio. Um acidente! Ele provocara-me, agredira-me. Legítima defesa. Não era assassino. Não ia pagar o preço do mal que não fizera. Acidente. Legítima defesa.

Tinha de fazer ver isso às pessoas. Para Miguel, morto que era, que vantagem adviria comigo a definhar na cadeia? Porque nenhuma, importava que vingasse a questão do acidente. Lembrei-me de levá-lo para a cabana. De facto, a verdade é mais nítida quando ajudada. O barco de borracha dera ao litoral e, por sorte, as canas também. Acontecia, ainda, que talvez ninguém soubesse dos nossos planos de pescaria. Eu, pelo menos, a ninguém dissera. Nada de premeditado, claro. O motivo para a confidência não se propusera, simplesmente.

Mas… pobre Miguel! Tão bom rapaz, cheio de vida… Pesadelo!

Procurava evitar o olhar do inspector da polícia. O homem tinha um nariz adunco de que não gostei, e se os nossos olhares coincidiam fazia uma observação cuja oportunidade não me parecia evidente. Penso que a polícia é assim. Corrosiva na sua persistência. Quer culpados. Para ela, é preciso que as pessoas sejam culpadas.

– Vamos esclarecer o melhor possível a situação.

– Tinha uma voz agradável. Meia idade, bem apessoado, não fora o nariz adunco. Porque não haveria de perceber que fora um acidente? – Pense em tudo o que me contou, ordene os factos e conte a história duma só vez.

Pareceu-me que estava bem. Era simples…

– Grandes amigos que éramos, tínhamos combinado, quase de improviso, esta pescaria. Chegámos cedo e tudo correu normalmente até que decidimos comer qualquer coisa, após o que resolveu tomar um bom banho de imersão. Ele era assim. Excelente pessoa, mas quanto a saúde e cuidados com ela deixava muito a desejar. Falei-lhe do absurdo de fazer isso, mas não consegui demovê-lo.

– A quem pertence a propriedade?

– Era dele. Raramente a utilizava e quando o fazia era apenas na companhia de amigos escolhidos. Pois, não conseguindo arrancá-lo à ideia, fui pescar sozinho. Até que estranhei a demora. Quando me fartei de chamá-lo, vim em busca dele. Não posso descrever o choque que experimentei ao vê-lo inânime na banheira… Ainda nem acredito. Parece um sonho… pesadelo!…

Reparei que o inspector parecia ter perdido o interesse pela narrativa. Aproximara-se da porta e olhava a tubulação que descia até à água.

– Para quem aprecia o isolamento, a situação é ideal. – Respirei melhor. O comentário mostrava noções favoráveis à minha causa. E porque não? Era notória a plausibilidade da questão proposta. – É uma bela construção. – Bateu com a mão no umbral rústico. – Minha que fora, e saberia dar-lhe melhor uso.

Percebi que a partida estava em vias de ganha. O pesadelo diluía-se. Segui o homem da polícia, que descia a leve encosta. O barco balouçava suavemente, amarrado a um molho de gravetos secos. Caído na areia, um velho casaco de surrobeco atraiu-lhe a atenção.

– Seu?

Disse-lhe que sim. Uma corrente fria percorreu-me a espinha quando o vi pegar na peça e estudá-la com vagar, pelo que acolhi com alívio o momento em que a largou, mas já não gostei que se abeirasse dum auxiliar e lhe dissesse algo que não percebi. Oprimiu-me particularmente que o guarda esboçasse um gesto de aquiescência e se afastasse de imediato.

Enfim, tomou-me um torpor esquisito, como que um reavivar do pesadelo ouvi-lo dizer, meia hora corrida:

– Nada, inspector! Percorri um bom bocado de terreno, para cima e para baixo, nas duas margens, sem resultado. Evidentemente que um trabalho de equipa poderá dar outros frutos…

 

PERGUNTA-SE:

Como é de prever, a trama construída pelo protagonista deste caso acaba por desmoronar-se. Que razões vão conduzir ao descalabro?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO