Autor

Marvel

 

Data

Novembro de 1981

 

Secção

Enigma Policiário [64]

 

Competições

II Volta a Portugal em Problemas Policiais e Torneio de Homenagem a Sete de Espadas

10ª Etapa | Abrantes – Caldas da Rainha – Torres Vedras – Lisboa

 

Publicação

Passatempo [86]

 

 

TERRORISMO?

Marvel

 

– Se da porta entreaberta, donde me vinha uma luz de penumbra, nada de bom parecia iminente, digo-lhe, inspector, que o que vi de seguida me parecia transcrito, se não de um cenário de Dante, duma das tenebrosas gravuras que intuíam, como capas, do conteúdo draculiano de certos folhetos tão em voga em princípios do século. – Meditou um pouco, a testar o sabor da frase emitida, e porque, retomando a voz, não enjeitou o enfase declamatório, há que aceitar a leveza do censo crítico. – Sacuda a imaginação, inspector, e tente conceber um estúdio de artista – pintor parcialmente destruído, uma figura de mulher seminua, ao fundo, amarrada a uma cama. Amordaçada. E sangue, claro, sangue por toda a parte, não esquecendo o necessário cadáver.

O inspector assentiu, paciente. Até se justificava o «sangue por toda a parte».

– A que se devia a sua presença no corredor? Havia muita finura no sorriso do que depunha:

– Poderia alegar circunstâncias coincidentes, ir a entrar, ir a sair, mas porquê entravar a marcha desejável da justiça omitindo factos, quiçá relevantes, para a sua consecussão, como se algo mais que simples comodismo me impusesse a medida? Pois, meu caro senhor inspector sabe como são estes velhos edifícios fraccionados à pressa em apartamentos adequados a intelectuais que forjam ainda o reconhecimento do seu valor. A intimidade é altamente devassada por divisórias que se contentam em sê-lo. Até mim, que, paredes meias, reflectia, chegaram vozes. Ininteligíveis. Prolongadamente. Ruídos vários. E, após, uns sons crepitantes, de cadência irregular. O seu ajudante falou-me em tiros de arma com silenciador. Calculo que seria isso.

– E que fez, então?

Reflecti mais um bocado. E presumi-me o instrumento óbvio para apaziguar uma desavença conjugal. Pelo que alcancei o corredor, a tempo justo de avistar indivíduos, dois, pelo menos, a desaparecer na escada. Logo a porta entreaberta funcionou como imã irresistível…

O telefone interveio, solicitando o homem da lei.

– Sim? Ah!, bom! Vou já. Não o deixe mudar de ideias. – Largou, rápido, o auscultador. – Obrigado, senhor Cerqueira. Vai ocupar-se de si um elemento do nosso pessoal a quem prestará o depoimento completo. Esteja à vontade. Boa tarde.

Um agente guardava a porta da enfermaria.

– O médico continua de acordo, inspector. Mas pede que não a fatigue, que o abalo foi violento.

– Que ferimentos acusa?

– Parece que levou uma boa tareia, mas não há fracturas sem lesões dignas de nota.

Tintura e traços de adesivo mascaravam a mulher estendida no leito.

– Que há para dizer? – Escondia-se-lhe na voz um rancor acutilante que parecia endereçado ao inspector. – Eu, na cama, lia e ele pintava as porcarias habituais. Tocaram e ele abriu. Três homens, de ar bruto, irromperam por ali, de armas na mão. Um ficou a vigiar Lourenço, enquanto os outros me amarravam à cama, como animais que eram. Saíram-se com uma grande conversa. Que eu tinha de parar com o que andava a fazer, que era errado e causava perturbações nos meios políticos a nível nacional. Que sabiam que eu era uma rapariga razoável, de contrário não estariam ali com tão bons modos. Os sevandijas! Disseram mesmo «bons modos»! Enquanto isso, escaqueiravam «distraidamente» o que lhes ia à mão, quando a tinham dispensada da função de agredir-me. Os pulhas, os selvagens!… Amordaçaram-me ao primeiro grito.

– E seu marido, entretanto?

– Esse cordeiro nojento? Diligenciavam que se esquecessem da sua existência, borrifando-se para que me matassem ou violassem.

– Violaram?

– Não tem nada com isso! O inspector mexeu os ombros, paciente.

– E depois?

– Por trejeitos e esgares, fiz-lhes ver que perdiam o seu porco tempo.

Não me amedronto facilmente, ou não fosse uma jornalista de combate.

Vou ao fundo das coisas, percebe? Já me deve ter lido, portanto sabe como sou. Veja, então: com toda a calma, sem mais aquelas, disparam contra o pobre diabo do Lourenço.

Uma vez, duas, mais vezes… Uma arma silenciada. Friamente, aconselharam-me a meditar em tudo aquilo, que lhes convinha mais viva, a dizer coisas diferentes, claro, mas que não confiasse… Não sabem com quem lidam, os grandes cães! Eu nem os ouvia, a olhar Lourenço, às portas da morte, sangrando por todos os lados, a arrastar-se. Perto da porta, ergue-se nos joelhos, com uma ideia qualquer e… pumba!, caiu de vez.

– Reconheceu algum?

– Era tudo escória de cais, nada do que frequento.

– Quem acha que poderá estar por trás de tudo isto?

– Olhe, sabe como é, terrorismo político. Sou jornalista de combate, ataco a fundo, doa a quem doer. Mas aposto que se apertar com…

O inspector abandonou o hospital a repetir mentalmente o par de nomes fornecido. Mais do que política, alta política. A haver convicção e fundamento nas indicações fornecidas poderia resultar dali algo de explosivo. Quando não, seria um mero caso de aproveitamento sujo para granjear publicidade gratuita, mórbida embora.

O ar comiserativo da primeira das personalidades que abordou sugeria a corporização da segunda hipótese.

– Sem mentir, dir-lhe-ei que ouvi já referir o nome dessa senhora, sem que me seja dado ter tido ocasião de cultivar-me com a sua prosa. Que, bem entendido, não ponho em dúvida possa merecer as honras da preservação em prol dos vindouros.

Tudo quanto posso ver-me envolvido é haver já, na minha condição de edil, proposto na câmara a demolição da lamentável colmeia humana em que residiam as vítimas, um verdadeiro aborto citadino, entrave mor de elementares projectos urbanísticos. Para além de santuário aberto a devotos da droga, do álcool, da degradação. Convirá, senhor inspector que daí a enviar assassinos contratados sobre alguns dos protagonistas da situação descrita vai uma certa distância. Decididamente, em que me beneficiaria estar na origem de meia dúzia de balas disparadas com silenciadores contra um artista que não lograra (não lograria nunca) sair do silêncio profissional?

A segunda, menos sarcástica e mais contundente, diria:

– Ei-lo a incomodar-me por via dos disparates duma pseudo Fallaci de varrer o chão, assassina impune da língua pátria, imaginação comparável a uma porta de carvalho chapeada de ferro, vertendo a discrepância possível a favor desta última.

Decerto que os conheço a ambos: sentámo-nos nos bancos do mesmo liceu, curso que nenhum deles conseguiu concluir. Daí, manias jornalísticas por um lado, somente secundadas por obscuro periódico, a justificar que qualquer um pode ser jornalista mas poucos são jornalistas, tendências artísticas, de fruto decrépito, do outro. Dois completos falhados, que souberam acoitar-se junto de semelhantes seus. De resto não me vejo a engendrar tiroteios cerrados, cenas de sangue apavorantes, agressões e sevícias ignóbeis. Pense bem, inspector.

Como se aceitasse o conselho, o inspector saiu a pensar. Reviveu o local do crime, gotas de sangue por todos os lados. E também algumas poças. Sangue de mais. De um só indivíduo? Um problema curioso a propor ao laboratório.

Cismou um pouco mais… e decidiu prender alguém:

 

PERGUNTA-SE: Isso mesmo quem? E diga o resto.

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO