Autor

M. Constantino

 

Data

2 de Outubro de 2011

 

Secção

Policiário [1054]

 

Competição

Campeonato Nacional e Taça de Portugal – 2011

Prova nº 10 (Parte I)

 

Publicação

Público

 

 

OS ENIGMAS DA TRIBO DESAPARECIDA

M. Constantino

 

Na distância do tempo, algures, isolada do conhecimento humano, a tribo, duas dúzias de viventes, existiam na certeza única do dia-a-dia. Na sua geografia havia o sol que se abria lentamente nas terras de cultivo primitivo, incidia na aldeia até se esconder sobre a montanha intransponível. Água, terra, céu, luz, escuridão… para além o reino dos espíritos na voz do trovão, na ira do raio.

O mar, calmo, que recebia as águas doces do rio, não impedia verões quentes, invernos rigorosos. “Vieram do mar…”, era a lenda. Mais baixos que altos, robustos, cabelos negros, cobriam-se de peles. Desconheciam o ler; contar eram os dedos das mãos. Tinham nomes próprios que esqueciam em troca de epónimos consoante os actos ou configurações. Viviam em comum. As mulheres iniciavam cedo a vida sexual, acasalando com vários homens. Tinham muitos filhos, mas poucos sobreviviam à infância; aliás, a média de vida era baixa. Competia-lhe a lenha, tecer cordas de fibras.

Os homens eram caçadores, pescadores e agricultores, segundo a aptidão. Para eles, o “rito de iniciação” sexual celebrava-se aos treze anos. Na “iniciação” de Jorge – a própria mãe se ofereceu para o ritual – a tribo aguardava, silenciosa. O iniciado apareceu corado, oscilante, mas sorridente; a iniciadora fez sinal afirmativo e o festim surgiu.

Vibrou pela madrugada com a notícia do nascimento de dois rapazes. Gémeos iguais, escorreitos; da mesma mãe, sol a despertar, nasceu uma menina diferente dos irmãos e dos demais. Beatriz – murmuraram. Aurora – ditou o chefe Mentor, apontando o horizonte ardente. Aristarco, o juiz, afastara-se. No areal húmido, pegou um galho, riscou um traço horizontal ao mar; dois outros, de iguais dimensões, formaram um triângulo.

Inspirado, lançou sobre este um outro igual mas invertido, resultando uma estrela de seis pontas. Espetou doze pequenos galhos, um em cada ângulo ou duplo ângulo de intercepção das duas figuras. Mentor aproximou-se, interrogativo. Aristarco adiantou-se – Já somos bastantes, 26 exactamente; esta é a nova aldeia. Doze palhotas, quatro em cada lado dos triângulos. Vais numerá-las, com o número um na palhota esquerda da base do primeiro triângulo e de modo a que a soma da numeração de cada um dos lados dos triângulos seja sempre 26. Um problema para ti! Problema? Algum tempo, riscos e Mentor sorriu: Tudo como queres! Mais… a soma dos números das pontas da estrela é 26! Aristarco rejubilou, clarificando que cada palhota seria dividida ao meio. Todas as portas, voltadas a nascente.

 

A tribo limpou o terreno, colheu paus, colmo e amassou barro para tapar as fendas. Quando pronta a habitar, Aristarco e Mentor ocuparam a n.º 1; Jorge, o iniciado, a 12, com Graçaim; as restantes distribuídas conforme as idades. À parturiente e gémeos coube a ponta norte da estrela. Relevam, entretanto, a façanha de Albano ao ousar enfrentar um urso com duas setas nos olhos. A fera, cega, na ânsia de arrancá-las, enterrava-as mais a cada movimento, devido à ponta em forma de “V” invertido. Destro, cravou a lança mortal. Pela dificuldade de construção e utilidade, as setas eram rigorosamente guardadas com a lança, as armas exclusivas dos caçadores.

Os pescadores usavam tridentes. Inquietante o caso dos gémeos, um dos quais era um mentiroso incurável; contagiava o irmão e punha a aldeia em alvoroço com falsos acontecimentos. Aguará, caçou uma raposa branca; da pele fez um gorro que usava dia e noite e ofereceu a Aurora a restante. Esta começou a negar-se a Jorge a favor daquele. Carla, 16 anos normais, inesperadamente recusou trabalho e homens; rodeou-se de bichos mortos e, qual Sibila, clamava tragédias. Enjeitada acolheu-a Boto, a quem não incomodavam os gritos; mas não suportou o cheiro e procurou outro poiso.

Sibila, acendeu uma fogueira a 9 passos da palhota. Sentada, de pernas cruzadas, com um felpudo e feio gato preto ao colo, balançava-se sobre o lume, gritando que a palhota ia arder. Mentor tentou intervir, inutilmente. Através da porta aberta viu lenha, peles velhas e carcaças pestilentas. Encaminhou-se para casa. Subitamente, as chamas devoraram a palhota. Testemunhas alegam que Sibila não fez qualquer gesto suspeito. Levantou-se, gritou e desmaiou. Aristarco visitou o local e ordenou a expulsão da moça para a floresta. Nomeado Alvanéu, Jorge montou nova palhota. A paz voltou.

 

O tempo decorreu até à “iniciação” dos gémeos e reajustamento habitacional. Aristarco e Mentor começaram por estes que ninguém conseguia diferenciar, sentados à porta da palhota. O juiz, encarando-os, perguntou de surpresa: Qual nasceu em último? Eu nasci depois, disse um deles; o outro respondeu: Eu nasci primeiro! Aristarco ponderou e, dirigindo-se ao primeiro, sentenciou: Tu, Júlio, és o Pábulo, terás o cabelo rapado e viverás na 5 com o Albino, o dos incisivos salientes, teu irmão Raul com Pendão na palhota de costas à de Alvanéu, que manterá habitação com Amaro, o Graçaim. Aurora não mudará. Na palhota mais distante à sua, fica Ursídio, vizinho do Bisonte. No n.º mais baixo da lateral Este do primeiro triângulo ficam o delgado Lavanco e o grande e gordo de barriga como um sapo, donde vêem, de um lado a entrada da palhota do Jaime, o Cafunda e o dos halos escuros em volta dos olhos; do outro, descortinam Cláudio, sentado à porta da habitação. A 9 é ocupada por Daniel, matador da raposa branca e Artur, o Alfaraz.

 

Na base do triângulo invertido, na palhota Este, habitam o arisco Donfafe e Nuno, o das pernas tortas, seguindo-se a de Luís e o grande e gordo Carlos; na última palhota a Oeste vivem o Paulo, aquele que acolheu Sibila e Mário, o armeiro Erco. Para coabitação, Aurora recusou a alegre Tono; e Rosa, a Rubi, ficou com a pequena e gentil Garnisé. Ana, de poucas falas, era incompatível com a faladora Lúcia, a Gralha, amiga da Rosa e Alice. As três últimas ocuparam a última palhota disponível e Muda fez companhia a Marta. O juiz citou: Caçadores – Alvanéu, Aquará, Alfaraz, Bisonte, Castor, Panda, Ursídio, não respectivamente, Daniel, Diogo, Cláudio, Jorge, Artur, Albano, Albino; pescadores – Amaro, André, Júlio, Luís, Mário, Raul, sem ordem, Epígono, Erco, Garçaim, Pábulo, Lavanco, pendão; agricultores – Boto, Cafunda, Cambeta, Donfafe e Untanha ou, sem ordem, Carlos, Hélder, Jaime, Nuno e Paulo. Citou as mulheres, recolheu as conchas onde arabescara os nomes, ápodos e números habitados.

 

Inverno chegado, Alvanéu percorreu a aldeia, barrando buracos nas palhotas. Alvorecera. Aristarco e Mentor contemplaram o manto branco da geada que cobria o solo da aldeia. Rastos inidentificáveis assinalam que o frio não apagara o fogo genital. Caminharam até ao centro… Um grito veio da palhota de Aguará; a porta abriu-se e Aurora caiu nos braços de Mentor.

Aristarco entrou para encontrar Aguará na cama, frio, com um buraco profundo no alto da cabeça, sangue e restos de crânio no chão, atrás; junto da parede, o gorro rasgado ao centro com um golpe. Não havia armas à vista, as próprias do caçador jaziam invioláveis. A luz de um pavio, mergulhado em resina na concavidade de uma pedra, fora a única testemunha.

A palhota trancada por dentro, a mulher dormira profundamente aos pés do morto; acordara para o horror e era insuspeita. As pegadas, impossíveis de identificar na geada, iam da palhota 7 à 3, da 12 à 9, desta à 2 e à 3, ou no sentido contrário ao indicado.

Quem? Como? Aos leitores o ensejo de identificar nomes, ápodos, moradas dos viventes e os enigmas da tribo…

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO