Autores Data 24 de Novembro de 1995 Secção O Detective - Zona A-Team [252] Competição Problema nº 10 | Convívio de Cacilhas Publicação Jornal de Almada |
UMA INVESTIGAÇÃO DE ROTINA Med Vet No
departamento de Homicídios os rostos não andam habitualmente risonhos, até
pela natureza do nosso trabalho. Mas naquele dia o meu chefe acercou-se de
mim com uma expressão vagamente semelhante a um sorriso. Estendendo um
recorte de jornal, perguntou-me: –
Já leu isto, inspector? Deitei
os olhos para o papel e li: «Lisboa,
18 de Junho – A linha de Sintra, considerada como uma das mais perigosas do
país para os seus utentes, fez nova vítima. Ontem pelas oito horas foi encontrado
caído perto da linha o corpo de um homem aparentando quarenta anos, que foi
identificado como sendo Pedro Sousa, que tinha ido visitar uns primos à
povoação de F… Aparentemente, o infeliz desequilibrou-se e caiu à linha por
uma porta que deveria estar fechada. A CP vai instaurar um inquérito, mas independentemente
das suas conclusões, impõe-se o estudo e implantação de meios para evitar que
novas ocorrências similares tenham lugar.» Com
a vaga sensação de que ele estava a brincar comigo, perguntei-lhe: –
Que tem isto a ver connosco? Trata-se de um acidente, não há dúvida! Não está
por acaso a sugerir que o homem tenha sido empurrado?… –
De modo algum! Esta notícia até me tinha passado despercebida. Mas o chefe da
esquadra responsável pela zona – você conhece-o, o velho Rosmaninho – achou
que alguma coisa estava errada. Ao que parece, o homem não tinha consigo o
bilhete de comboio. O Rosmaninho disse-me que, embora tivesse vivido em F…
muitos anos, na companhia de um velho tio rico e de um primo, ninguém sabia
dele há quase vinte anos. Foi obrigado a mudar de ares devido a problemas com
raparigas. Ora, há dois meses o velho Teófilo Sousa morreu e deixou a sua
fortuna aos sobrinhos: este Pedro Sousa e um filho da sua irmã, Fernando
Alves. O advogado do vê-lho passou semanas a indagar o paradeiro do Pedro e finalmente
encontrou-o no sul do país, numa aldeola perdida, vivendo do que podia arranjar.
Claro que a notícia de que possuía uma fortuna lhe foi bem vinda, e assim
dispôs-se a viajar até F… para tomar posse dela. O primo deu-lhe
hospitalidade e despediu--se dele na estação. O Rosmaninho pode estar enganado,
claro, mas de qualquer modo vá lá dar uma vista de olhos. Não se preocupe, é
só uma investigação de rotina… De
rotina, este assunto não tinha nada; a julgar pela notícia do jornal, mesmo
com a história do Rosmaninho, não tinha dúvidas de que seria uma viagem
inútil. Apesar disso sentei-me suspirando ao volante do velho Fiat e esforcei-me
por encarar o lado bom – podia assim afastar-me do forno que é a capital,
nesta altura do ano, e desfrutar de uma paisagem menos cheia de paredes de betão.
Quando cheguei à vila de M…, onde se situava a esquadra do capitão Rosmaninho,
fui cordialmente acolhido por este. –
Aqui temos o inspector da Judiciária! como vai o vê-lho Antas? Sempre em cima
dos subordinados, não?!… Bem, este caso cheira-me mal. Já viu o relatório do
médico? Não? Aqui o tem. Leia… Mergulhei
no fraseado médico-legal com um suspiro – nunca entendi por que razão hão-de
os médicos usar termos tão esquisitos… E resumo, o relatório indicava como
causa da morte lesões cerebrais resultantes do afundamento do osso parietal direito,
em seguida a um choque violento com um objecto rombo – presumivelmente um dos
carris da linha, ou uma pedra. Não tinham achado sinais de doença ou problemas
cardíacos – tratava-se de um homem, saudável para os seus quarenta e três
anos, embora um pouco magro. Não havia outros sinais de violência. –
Se quiser examinar o local onde o corpo foi encontrado, o guarda Correia pode
acompanhá-lo… Aqui está ele! Acompanhe o Inspector até ao ponto da linha onde
o corpo de Pedro Sousa foi descoberto. Até logo, Inspector, apareça depois
para conversarmos… Entrámos
para o velho Fiat, que se pôs em movimento com um protesto. O guarda nada
soube dizer de novo, a não ser que o funeral tinha sido dois dias antes e que
a polícia tinha reservado a sua opinião sobre o caso. Já em F… fiquei a saber
que a linha férrea descrevia uma curva acentuada logo a seguir à estação,
prolongando-se depois em linha recta durante alguns quilómetros. O corpo fora
encontrado num trecho da linha no alto duma colina, perto dos carris, de
bruços a cerca de mil e quinhentos metros da estação. Não se via nenhuma casa
perto, ficavam todas do outro lado, por isso não havia testemunhas oculares
do acidente. A casa mais próxima, segundo me disse o guarda, era a do vê-lho
Teófilo Sousa, onde agora morava o primo da vítima. A
uma pergunta, Correia disse não terem encontrado manchas de sangue perto do
corpo, mas de qualquer modo, a ferida não sangrara muito. Dirigimo-nos a casa
do sobrinho do velho Sousa. Passámos por um caminho calcetado que levava à
estação e à vila, do outro lado, terminando no largo portão da quinta. O
guarda Correia apresentou-se a uma senhora frágil que fomos encontrar na
sala, após a porta nos ter sido aberta por uma criada. Parecia uma boneca de porcelana,
ali envolvida em almofadas… –
Bom dia, guarda, bom dia, inspector. Vêm por causa daquele infeliz acidente
com o primo do meu marido? Que desgraça… Não, Não o conhecia; sabe, conheci o
Fernando quando ele estava a trabalhar no norte e vim para aqui depois de
casarmos. Ele raramente falava do Pedro, parece que era a «ovelha negra» da família…
tinha má reputação com as mulheres. O meu marido levou-o à estação – parece
que ele tinha uns negócios a tratar em Lisboa, se não teria ficado mais tempo
connosco… oh, aí vem ele! Fernando, estes senhores são da polícia, andam a investigar
o acidente do teu primo… Por
momentos, pareceu surpreendido: –
Pensava que já tinham encerrado o assunto!… O quê»… Quer que lhe conte o que
aconteceu nessa tarde? Bom, não sei se sabe, há muito tempo que não via o
Pedro – podia até ter morrido! Saímos daqui por volta das sê-te, para apanhar
o comboio das 7.25; levamos cerca de vinte minutos a chegar à estação, e ele
queria chegar com tempo. Deixei-o no comboio e voltei para aqui, onde cheguei
por volta das oito menos um quarto. Não percebo como aquilo aconteceu, parecia-me
saudável… O dinheiro? Ora, Inspector!… Toda a gente lhe dirá que a fortuna
que herdei do meu tio veio na altura certa! Sabe, a minha mulher tem estado muito
doente e os tratamentos não são baratos… De qualquer modo, não precisava do dinheiro
do meu pobre primo!… Agradeci-lhe
e fomos procurar João Costa, o bêbedo da vila. Achámo-lo no bar e assim que
lhe comecei a fazer perguntas encolerizou-se. Apesar do seu aspecto franzi-mo,
totalmente em contradição com Fernando Alves, impressionava. –
Já lhe disse no outro dia que esse Sousa era um patife! Há anos tive uma
zanga a sério com ele, por causa de uma miúda; roubou-me a namorada e depois
deixou-a sem explicações! Era um demónio com saias – foi por isso que teve de
se pôr ao fresco, e assim não pude ajustar contas. Onde estive no dia 17?
Passei a tarde aqui, a beber; com quem?! Santo Deus, homem sei lá!… Consegui
arrancar-lhe o nome da moça, que por sinal ainda vivia na terra. Fomos
encontrá-la com o noivo, Carlos Santinho. –
Sim, inspector, o Pedro Sousa era um patife. Abandonou-me sem explicações,
mas constava que chegou a ter cinco ou seis namoradas ao mesmo tempo…
Felizmente para mim, encontrei depois outro homem com quem casei, mas morreu
há dez anos. Sim, sabia que ele estava cá, mas só o vi de longe; não estava
interessada em revê-lo… Nesse dia o Carlos estava cá a jantar, só se foi
embora depois das onze… O
noivo confirmou: –
A Rita contou-me tudo por que esse crápula a fez passar; ao que parece, não
foi a única. Nunca tinha visto o tipo antes e só o vi de longe. Na primeira
opinião não se perdeu grande coisa… Na
estação, o empregado da caixa afirmou não se lembrar de Pedro Sousa ou do seu
primo. Mas aquela hora era de ponta, com o comboio que trazia as pessoas que trabalhavam
na capital a chegar às sete e quinze, de modo que poderia ter-lhe passado despercebido.
Toda
a gente tinha um alibi, ou quase, para o período em que se dera a morte:
entre as sete e as oito horas. No entanto… Quando
me sentei em frente do capitão Rosmaninho resmunguei: –
Tem razão! Raios me partam se esta é uma investigação de rotina... O homem
foi assassinado! Ora
eu pergunto, tal como o meu chefe me perguntou: a)
Porque razão(ões) se tratou de crime e não de acidente? b)
Quem assassinou a vítima? Porquê? c)
Como foi e com que foi cometido o crime? |
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© DANIEL FALCÃO |
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