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Autor Data Maio de 1982 Secção Competição Problema nº 4 Publicação XYZ-Magazine [23] |
O MISTÉRIO DO TRIDENTE FATAL Mr. Jartur Atirámos as sacas para o banco posterior do carro e entrámos depois,
puxando para nós as portas que o sol tornara escaldantes. Entre o mar e a estrada por onde o potente veículo quase voava, estendia-se
a praia. Era uma centena de metros de areia fina e alourada, formando
graciosas dunas que o astro rei embelezava com os seus maravilhosos reflexos.
Transposta a suave curva duma duna que dois rochedos coroavam, surgiu, a
alguns metros, um vulto feminil que corria para a estrada, acenando com os
braços na nossa direcção. Marcos e eu
entreolhámo-nos, enquanto ele fazia parar o carro junto à berma da estrada,
na intenção de saber o significado daqueles sinais que tão formosa rapariga
fazia correndo para nós. Era bastante esbelta e bela a jovem que parou junto a nós, extenuada, com
os compridos cabelos aloirados soltos ao vento, chicoteando-lhe os ombros e o
colo que o «maillot» deixava a
descoberto. Após alguns momentos em que tentou refazer-se da fadiga, a
escultural mulher pediu-nos que a auxiliássemos, pois algo de terrível
acontecera a seu noivo. Enquanto nos acompanhava ao local do drama, uma barraca de tecido
multicolor montada atrás duma pequena duna, a jovem foi contando o que
acontecera. – Cheguei de manhã, com o meu noivo, e aqui tencionávamos passar o resto
do dia, devendo regressar a casa com um amigo que por aqui passaria nesse
propósito. Depois de termos dado um passeio pela beira do mar, o Alfredo
foi-se deitar a ler junto à barraca, enquanto eu fui refrescar-me um pouco.
Mergulhando no mar afastei-me da praia e, tão distraída andava praticando o
desporto que mais admiro, que não dei pelo que se passava ao pé da barraca.
De súbito, ouvi uma detonação. Olhei na direcção da
praia e vi um homem, de pé, no sítio onde o meu noivo ficara. Notando que não
se tratava de Alfredo, gritei e nadei para terra, enquanto o homem fugia,
correndo, em direcção à estrada. Só quando saí da
água, é que vi que meu noivo estava no mesmo sítio, deitado, mas com qualquer
coisa espetada na cabeça. Corri para junto dele, gritando o seu nome, mas não
obtive resposta. Então, baixando-me e encostando o ouvido às suas costas
notei com horror que estava morto. Desatei a chorar, abraçada a ele, e só me
levantei quando ouvi o ruído do vosso carro. Então, corri esbaforida e… o
resto já os senhores o sabem. Entretanto, havíamos chegado junto à barraca e a jovem tentou reter um
soluço que por fim soltou, fitando sem ver, o corpo daquele que fora seu
noivo. Enquanto eu tentava consolar a pobre moça, o meu amigo ajoelhou-se
junto ao cadáver, e colou-lhe o ouvido um pouco abaixo da omoplata esquerda,
chegando também à conclusão que a rapariga citara. Depois, olhando o corpo apenas coberto por um calção de tecido elástico,
Marcos Dias observou com atenção o tridente que ao chegar vira espetado na
nuca do desventurado banhista. Dos três orifícios abertos em linha, onde
mergulhavam as pontas do arpão, saía ainda algum sangue que escorrendo pelo
pescoço se ia juntar ao outro que a areia fina absorvera. Com cerca de
setenta centímetros de comprimento, aquele instrumento de caça submarina
estava encurvado a meio e tinha ainda presa no extremo, uma ponta de fio de
pesca. Impressões digitais, não as havia. Na areia, à roda do corpo, nada de anormal se notava. Pegadas, havia-as
por toda a parte, mas seria impossível atribuí-las aos respectivos
pés, já que todas eram disformes e idênticas, por causa da inconsistência do
terreno. Marcos prosseguia nas suas perscrutadoras observações e eu continuava
cumprindo a minha missão consoladora. Fiz sentar a jovem junto da barraca e
tentei fazer estancar as lágrimas que, deslizando pelas faces que o sol já
bronzeara um pouco, lhe caíam nas pernas e rolavam pela pele limpa e sedosa,
confundindo-se com algumas gotas de água marinha que o calor ainda não
evaporara. Desviando o olhar do pequenino caderno onde fizera alguns apontamentos,
Marcos volveu-o para mim e perguntou, dirigindo-se à jovem: – Sabe se o seu noivo teria alguém interessado na morte dele? – Creio bem que… não!… Apesar de que…. ele é
muito rico. Nunca se sabe… – Sim, compreendo! – cortou o detective, enviando um olhar mais atento, pela primeira
vez, ao corpo harmonioso da linda rapariga. E depois, continuou. – Vejamos. A
menina sabe se lhe roubaram alguma coisa? Talvez da barraca!? – Não sei!... Depois que vim do mar ainda não entrei nela. Marcos Dias parou junto de mim. Curvou-se para entrar na barraca e
começou a remexer o seu conteúdo, pedindo à rapariga que visse se faltaria
alguma coisa. – Parece que está tudo. – Afirmou endireitando a roupa sobre o colchão
pneumático e metendo na saca cilíndrica o barrete de natação, ainda húmido. Terminado o exame no interior da barraca, Marcos saiu e voltou a examinar
o corpo, impelido por súbito pensamento. A cabeça do pobre rapaz caía sobre
um romance de Françoise Sagan, que as suas mãos
crispadas seguravam ainda. – A senhora… – ia a dizer o investigador. – Oh! Desculpe não lhe ter dito ainda. Chamo-me Maria José e vivo a poucos
quilómetros daqui. Canto no restaurante «Oásis».
– A senhora – recomeçou a dizer Marcos Dias – não reparou se o homem que
se afastava era algum seu conhecido? Posso até lembrá-la que poderia
tratar-se do amigo que viria buscá-los para os conduzir a casa. – Oh! creio que não. Mas se o senhor quiser
interrogá-lo, ele é o director da orquestra que me
acompanha. Poderá encontrá-lo no «Oásis»,
pois nesta ocasião deve estar a ensaiar. Marcos expeliu pelas narinas uma certa porção de ar e, aproximando-se de
mim, disse qualquer coisa que me deixou incrédulo. – Não! Não pode ser! – repliquei quando
recuperei a fala. – Ele… Mas, Marcos fez-me interromper a frase. Olhando a jovem que continuava
sentada na areia, com a cabeça entre as mãos e os cotovelos sobre as pernas
agora impecavelmente bela, pois já secara toda a água, disse-me, com uma
expressão caricata que só eu compreendia. – Bem! Têm de ficar aqui um bocado, enquanto eu vou ao «Oásis» falar com o senhor suspeito.
Depois irei buscar uma ambulância e as autoridades locais, pois os senhores
da polícia costumam querer cumprir as formalidades usuais. O meu amigo afastou-se pela praia em direcção
ao automóvel e eu, colocando sobre o corpo uma colorida toalha que tirara da
barraca disse à jovem, ensaiando uma pronúncia cativante: – Vá!… Não chore mais. Em breve o caso ficará resolvido e o culpado será
castigado. Premiando-me com um olhar misto de serenidade e receio, a jovem puxou os
cabelos por cima do ombro esquerdo e reclinou-se na areia, onde os seus cabelos
aloirados deixaram uma mancha brilhante. Aproveitando o tempo que Marcos levaria a regressar da cidade, resolvi
refrescar-me um pouco e convidei a rapariga a acompanhar-me. Maria José
rejeitou o convite, pois pretendia descansar alguns minutos. Do lado oposto
da duna, oculto da «viúva», despi o
dispensável. Segundos depois, corri pelo suave declive da areia e lancei-me ao mar,
aproveitando uma vaga que corria para a praia. Ao entrar na água, senti a
cabeça bater em qualquer coisa que me pareceu um rochedo mas que afinal não
passava de um grande peixe. Agarrei-o, julgando-o vivo. Porém, logo notei que
estava morto e quase em decomposição, com os intestinos a sair por um rasgão
que tinha no ventre. Segurando o peixe e nadando com uma das mãos, tal como Camões
salvando Os Lusíadas, voltei à praia onde o coloquei com cuidado, pois
pensava pregar uma partida ao Marcos, quando ele regressasse. Entretanto, Marcos Dias chegava ao «Oásis».
Mandou chamar o director da orquestra que o gerente
do restaurante disse ter chegado poucos minutos antes, e começou sem rodeios. – O senhor pode dizer-me porque só agora chega para o ensaio, quando
afinal já há mais tempo aqui devia estar? Creio que isso terá alguma relação
com um crime que há pouco cometeram e eu tenho de resolver… – Perdão, senhor! Não sei de que se trata. Quanto ao meu atraso, confesso
que não tenho provas do que lhe vou afirmar. Fui-me deitar um pouco na praia,
depois do almoço, e, sem querer, adormeci. Quando acordei, já eram seis horas
e vim logo para aqui. – Pois bem – exclamou Marcos Dias – o noivo da Maria José foi morto num
local quase deserto, junto ao mar, e o senhor era a única pessoa que sabia
onde eles se encontravam. – Isso é verdade! – respondeu o outro. – Mas
também é verdade que o sítio onde eu estive é muito distante do lugar onde
fiquei de ir buscar a cantora e o Alfredo. – Está bem! Depois veremos isso. Para, já, faça favor de me acompanhar…
Ah! A propósito: o senhor não se dedica à caça submarina? – Não, senhor detective. E, por sorte, nem
sequer sei nadar. – Pronto, vamos. – E, abrindo a porta do Mercedes, Marcos Dias disse ao seu interlocutor: – Passaremos
pela polícia e levaremos uma ambulância para remover o corpo. O carro arrancou velozmente, provocando no rosto do músico algumas contracções que expressavam receio. Quando o carro, cada
vez mais veloz, entrou na estrada principal, João da Doura, assim se chamava
o chefe da orquestra, exclamou: – Lamento imenso a morte do meu amigo, a tal ponto que serei capaz de dispender algum dinheiro para que seja feita justiça.
Quanto a mim, as pessoas que me viram na praia devem comprovar as minhas
afirmações. – Sim! Deixe-me pensar um pouco… depois veremos. Uma hora depois, enquanto o culpado era conduzido ao quartel da «Judiciária», Marcos Dias e Jartur aproximavam-se da cidade. No olhar dos dois amigos, um atento à estrada, outro à paisagem que se
estendia em redor, reflectia-se a alegria do dever
cumprido. PERGUNTAS: – Quem foi o culpado? – Quais foram os pormenores acusadores
encontrados pelo detective? – Como se teria passado o caso?
Exponha o seu raciocínio. |
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© DANIEL FALCÃO |
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