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Autor Data 1 de Junho de 2026 Secção O Desafio dos Enigmas [244] Competição Torneio
“Solução à Vista!” – 2026 Problema nº 6 Publicação Audiência GP Grande Porto |
ACIDENTE MISTERIOSO Rigor Mortis O inspetor
Tiago Rodrigues sentou-se confortavelmente na sua poltrona favorita e cruzou
as pernas, mirando a sobrinha, Júlia, sentada à sua frente. Como sempre,
Júlia tinha-se mostrado imensamente interessada na descrição que o tio lhe
tinha feito do seu último caso, a morte de um homem para os lados de
Estremoz. Esse homem, Custódio Ramires de seu nome, abastado industrial da
construção civil, tinha acumulado uma considerável fortuna adquirindo
habitações devolutas, recuperando-as cuidadosamente e vendendo-as a seguir.
Viúvo há mais de uma década, vivia numa casa nos arredores de Estremoz,
próximo de uma das várias pedreiras de mármore da região, com duas filhas na
casa dos vintes, Rita e Amélia, uma espécie de “mordomo de família” –
Frederico, filho de famílias pobres, que o acompanhava há décadas, desde que
ambos tinham servido no Exército, na guerra colonial, onde cada um tinha salvo várias vezes a vida ao outro – e uma cozinheira que
trabalhava todo o dia lá em casa, mas de facto habitava na sua própria casa,
na vila vizinha. – Apesar dos
seus setenta e tal anos, o Custódio tinha boa saúde e mantinha uma vida bem
ativa – disse o inspetor. No dia em que veio a morrer, tinha saído sozinho de
casa a conduzir o seu carro, um Volvo com uns anos, mas em excelente estado,
logo de manhã cedo, para se dirigir a Coimbra, onde iria observar as obras
que estava a fazer para recuperação de uma enorme vivenda nos arredores. Foi
nessa viagem, a poucos quilómetros de casa, que teve o acidente fatal. Por
razões que se desconhecem, de facto, perdeu o controlo da viatura quando
seguia por uma estrada mesmo ao lado de uma grande pedreira de mármore. O
carro galgou o frágil muro que delimita a estrada e precipitou-se pela
pedreira abaixo, acabando totalmente destruído. – Mas não ia em
excesso de velocidade, pois não? – perguntou a
Júlia. – Nada na
estrada dava a entender que pudesse ir a grande velocidade. E não havia
quaisquer marcas de travagem ou de derrapagem. Foi como se o condutor o
tivesse dirigido diretamente contra o muro limítrofe. Tudo ainda mais
estranho porque o Custódio conhecia perfeitamente aquela estrada, por onde
passava sempre que precisava de ir a Coimbra, ou a Lisboa, o que era no
mínimo uma vez por semana. – Não havia
nada de suspeito com o carro? – Não. Mau
grado o estado em que estava, a Polícia investigou cuidadosamente o veículo,
claro, e não encontrou nada de errado nem com os travões, nem com a direção. – Suicídio?
Embriaguez? – questionou a Júlia. – Totalmente
implausível. O Custódio Ramires não bebia álcool, de todo. Estava bem da
vida, profissional e economicamente, e tinha excelente saúde, aparte uns
problemas de asma que o afligiam ao acordar. Mas umas inalações receitadas
pelo médico dele resolviam o problema, pondo-o em condições para o resto do
dia. Assim mo disseram quer o mordomo, quer as filhas. Tinha sempre a
respetiva máquina na mesa de cabeceira, preparando
ele próprio a mistura dos medicamentos receitados pelo médico pessoal, ao
deitar-se, deixando tudo pronto para poder fazer as inalações assim que
acordava, usando o bocal que se adaptava sobre a boca e o nariz, ainda
deitado. Era uma mistura de líquidos e uma pastilha que se dissolvia nesse
líquido durante a noite. – Algo de
especial aconteceu nessa manhã? – Nada,
novamente segundo o mordomo e as filhas. De facto, eles referiram-me que
nessa manhã o Custódio até estaria particularmente eufórico, tendo-se
despedido entusiasticamente de todos, apesar de planear regressar ainda nessa
noite. – Porquê tanta euforia?... – Perguntei
exatamente isso ao mordomo… Ele disse-me que o Custódio estava muito feliz
por ter resolvido a questão do seu testamento. Dois dias antes tinha-lhes
dito que já o tinha assinado, e que deixava a casa onde viviam e meio milhão
de euros ao Frederico, e o resto da sua fortuna às filhas, dividido
igualmente pelas duas. Qualquer coisa como seis ou sete milhões de euros para
cada uma… Além disso, segundo ele, as obras em Coimbra estavam a correr muito
bem, e ele estaria em condições de vender a vivenda recuperada dentro de um
par de meses, talvez por uns três milhões de euros. – Dinheiro aos montes… – comentou a Júlia. E ficaram todos
satisfeitos com as decisões testamentárias? – O Frederico
estava muito pesaroso com a morte do seu patrão e amigo, mas mais que
satisfeito com isso, visivelmente! Segundo ele, as filhas do Custódio não
ligavam grande coisa ao dinheiro, habituadas como estavam a viver
abastadamente. Eram boas pessoas, ainda que com os seus pecadilhos, disse
ele. A Rita, a mais velha, tremendamente extrovertida, tinha um problema de
vício de jogo e já tinha atingido o limite de crédito que o pai tinha
negociado com o Casino de Lisboa. Cinquenta mil euros… O assunto fora
discutido ao jantar, um par de semanas antes, e o Custódio terá dito que iria
liquidar essa dívida junto do Casino, desde que ela lhe prometesse não mais
chegar ao limite daquele crédito. Aparentemente, segundo o Frederico, não
iria ser grande problema, porque a Rita estava noiva de um milionário daquela
zona, e o casamento até já estava marcado para o mês que vem… E como os dois
eram jogadores… Ao que parece, a Amélia será bem mais introvertida que a
irmã, talvez até sorumbática. O seu pecadilho serão as roupas… Segundo o Frederico,
o guarda-vestidos dela daria para várias mulheres… Já terá tido um par de
namorados, mas com nenhum deles terá chegado ao ponto de pensar em casar. – O “caso”
parece de facto muito linear, tio. Porque é que os foste interrogar, se
parecia tratar-se de um mero acidente rodoviário? – O oficial da
Polícia que tomou conta do caso é meu amigo de longa data. Aproveitando eu
estar em Vila Viçosa, almoçámos juntos uns dias depois do acidente. Ele
estava tão intrigado com o facto de não haver nenhuns sinais de travagem ou
derrapagem do carro na estrada, que lhe propus irmos os dois conversar com as
filhas e o mordomo. No fim dessa conversa, quando nos despedimos, deixei-o
muito mais descansado, concluindo os dois que tudo tinha sido, como dizes, um
simples acidente rodoviário, ainda que infeliz. – Bom, tio,
talvez… – disse a Júlia com ar circunspecto. Ou talvez não… – Que queres
dizer com isso?! – Acho que o
“acidente” pode ter sido “provocado” por algum deles… Não diretamente, claro,
mas pondo o Custódio num estado de espírito propício a que ele viesse a
acontecer… – Estás a
pensar em algum deles, em concreto?! – De facto,
estou… E, caro Leitor, que acha você? Poderá ter sido como diz a Júlia? E
como é que aquele dos três que o tenha feito, de facto terá conseguido que o
Custódio ficasse nesse “estado de espírito”? E qual deles poderá ter sido? |
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© DANIEL FALCÃO |
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