Autor Data 16 de Maio de 2004 Secção Policiário [670] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 9 Publicação Público |
O ENIGMA DA MORTE DE UM GERENTE Severina Vicente Lopes, gerente numa
antiga oficina de bairro, apareceu morto no seu gabinete, num princípio de
tarde de Outono. Foi chamada a polícia. O agente Antonino,
destacado para investigar o caso, após chegar ao local e antes de se proceder
à recolha de dados, observou o corpo e a disposição na sala, por fora da
porta de entrada interior para o gabinete; a porta situada mais ao lado
direito por dentro da divisão, que fora aberta. O corpo de Vicente ficara
no meio da divisão, caído para diante: a cabeça apontava para a traseira do
edifício. Em frente à porta da entrada interior, ao canto e junto à única
janela, estava a secretária, em diagonal; ao lado esquerdo da janela, havia a
porta de saída do gabinete para a rua das traseiras da oficina. Dentro do
gabinete, além da cadeira giratória junto à secretária (que recebia luz do
exterior pelo lado direito), o cabide de braços com o impermeável pendurado.
Na parede lateral à esquerda, a estante onde, no bar aberto, estava em
evidência uma garrafa de Cutty Sark
e dois copos. Logo que lhe foi possível,
o agente Antonino verificou que o corpo do gerente não foi arrastado, ou
mexido, após o ferimento. Dobrado para a frente, um pouco tombado para o seu
lado direito e deitado sobre esse braço, a cabeça do cadáver assentava numa
pasta sangrenta sobre o chão de ladrilho. Um tiro atingiu-o na nuca, à
queima-roupa. A arma, uma “Browning” antiga, era da casa. Talvez deixada pelos
patrões antigos. Vicente Lopes tinha achado que era uma boa arma e chegara a
estar no seu gabinete. Agora, ficara no chão, ao lado esquerdo do cadáver –
embaraçada no lenço de seda natural, agora com vestígios de sangue, que
Vicente costumava usar. A cápsula não foi longe. A bala atravessou a cabeça e
foi cravar-se na ombreira da janela, que dá para as traseiras. O agente Antonino foi
informado da reunião, na véspera, entre os representantes dos donos da
empresa e Vicente Lopes. E que este saiu tarde do seu gabinete – segundo o
guarda da noite. Vicente Lopes, com
cinquenta e poucos anos, viúvo, na gerência da empresa desde a mudança de
proprietários da oficina, era produto de uma família de topo, arruinada.
Destacou-se em épocas sucessivas na ginástica de alta competição, enveredando
depois pela vida circense. Era dado ao malabarismo, que nunca deixara de
praticar ocasionalmente. Com personalidade e carisma para gerir e se fazer
obedecer, aceitou e adaptou-se ao emprego possível. Mas sem conseguir
facilidade de convívio com os empregados mais antigos da casa, herdados da
anterior gerência, com os quais era forçado a lidar. Comprometera-se perante
o antigo dono, fundador da firma, a conservá-los em serviço enquanto não
houvesse justa causa para despedimento. No dia da sua morte,
faltavam 15 minutos para as dez horas da manhã quando entrou a porta
principal. Vinha molhado, porque chovia e trazia a sua maleta de executivo. Não
parou na recepção. O seu gabinete ficava ao
fundo da oficina, à direita, com janela e porta de saída para a rua, nas
traseiras. Logo que tomou posse mandou fechar a porta interior, que ligava ao
gabinete da sua auxiliar, Ana Cristina, no compartimento ao lado, com o
pretexto da necessidade de forrar a parede de ligação com uma estante. Deste
modo, Ana Cristina só o viu, por acaso, quando ele acabava de limpar os
sapatos no tapete, junto à porta e entrara para ocupar o seu lugar. A porta ficou entreaberta,
como sempre quando estava disponível. Às dez e trinta e cinco, o
contramestre André Silveira (que dirigira a oficina antes de Vicente Lopes
ser contratado) foi ao gabinete do gerente, com uns documentos na mão. Não se
demorou. Saiu num repente, de rosto fechado – segundo Graciano, o estafeta do
Banco, porque se cruzou com ele. Preparada a correspondência
para entregar ao gerente e a folha dos depósitos da manhã, para assinar, Ana
Cristina aproveitou e deu a pasta a Graciano, que a levou ao gabinete do Vicente
Lopes – como por vezes fazia para facilitar o próprio trabalho. O gerente
recomendou a Graciano que não fechasse a porta ao sair. Às dez e cinquenta, Ana
Cristina percebeu que deixara de chover. Na rua ao lado andavam obras, e a
betoneira, perto da sua janela, começou a trabalhar e a fazer barulho. Ana
Cristina tratava, então, do arquivo – não viu se alguém visitou Vicente até
às onze e vinte, hora em que viu Manuel Lúcio, seu padrinho, aproximar-se do
gabinete do gerente. Como ela queria falar ao padrinho, ficou por ali à
espera que saísse, já que só entrava no gabinete do gerente quando era
chamada, ou fosse necessária a sua presença. Lúcio empurrara a porta e
entrara, para sair de imediato, quase a correr, deixando a afilhada tão
confusa, que lhe foi no encalço, sem reparar no fornecedor que entrava para
falar com o gerente, não conseguindo chegar a tempo de impedir que ele saísse
pela porta fora. Vicente não gostava de lidar com pessoas mais velhas e
doentes; e Lúcio era doente; nem imaginava o que o gerente lhe dissera, num
dia mau… O fornecedor não foi
atendido: encontrou a porta do gabinete fechada. Foi inútil bater e chamar:
Vicente Lopes não atendeu. Podia ser que saísse pela porta das traseiras para
almoçar no restaurante de um amigo, ali perto. Ou desse um pulo ao ginásio
para descontraír, como também acontecia… Não se acharam impressões
digitais na arma. Só as havia num dos copos e na garrafa de Cutty Sark. O outro copo estava
limpo. Os contornos dos sapatos de
sola do Vicente, notavam-se pouco, da porta de
entrada até à secretária – de resto cobertas pelas pegadas das botas de
Silveira e sinais do calçado de Graciano. Mas viam-se bem junto à secretária,
à porta de trás e até à estante, acompanhadas pelos sinais do calçado de
outro indivíduo – de pés mais pequenos e sapatos de sola de borracha – também
confinados aos mesmos sítios. Das pistas recolhidas no
chão do gabinete, numa das fotos em formato normal foi possível detectar, na que focava a área perto da porta da entrada
interior, uma marca a um lado, como se houvesse a intenção de evitar as
pegadas existentes: um leve contorno, quase triangular, apenas um resquício
de lama, mal seca, nem sempre contínuo; e, perto, o sinal de um pequeno aro
carregado, talvez com dois centímetros de diâmetro, que o alastramento pelo
peso tornou indistinto – um quase nada a dar que pensar ao agente Antonino Analisando as notas sobre o
que se passara nessa manhã, o agente Antonino considerou a sorte de ter sido procurado
pelo Luís Mota, dono do restaurante que o gerente frequentava: o homem dos
pés pequenos. Luís Mota entrara no gabinete do gerente nessa manhã, pela
porta das traseiras e estivera com o homem. Conheciam-se havia anos. Pois
sempre que Vicente tinha apertos de dinheiro recorria a ele, o Mota:
conhecido de muita gente! Vicente Lopes nunca fora pessoa para viver sem ser
em maré-alta – como fora habituado… Restavam umas contas a acertar, uma conta
elevada, desde a morte da mulher. Já lhe tinha pedido o pagamento… Tivera um
telefonema nessa manhã: que aparecesse cedo, pois queria pagar-lhe. Após
cobrar a dívida, em numerário – não gostava de cheques – beberam um copo,
para comemorar, e fora sem demora à agência do banco mais próxima. Para ficar
descansado! Assim, o agente acabou por
resumir: Ana Cristina era empregada
competente, quase trintona; dava-se melhor com a maioria dos empregados do
que o gerente – que se conservava sempre à distância e era pouco amável com
os empregados antigos. Não disse se a porta do gabinete estava fechada ou
aberta, quando foi atrás do padrinho, nem deu pelo disparo do tiro. André Silveira, empregado
de confiança dos antigos patrões até há quatro anos atrás, considerava-se a
pessoa certa para o lugar de Vicente Lopes, que fora ocupar o lugar por ser
amigo do novo patrão. Ao visitar o gerente, de manhã, este – que lhe conhecia
a fixação a seu respeito – atirou-lhe directamente
e com ironia: “Para a semana vai haver uma auditoria à empresa. E depois, vai
falir!... Os donos disto acham que não se lucra o bastante e não vale a
pena!... Não serve de nada conspirar para me substituir… Vai tudo para a
rua!” E riu-se. “Você nunca me enganou! Não
presta!” – ripostou o contramestre. Tão danado com o
gerente que, quando este lhe lembrou mais tarde, pelo telemóvel, que fosse
buscar os documentos deixados em cima da secretária, resolveu não ir e pediu
a Lúcio para lhos ir buscar. “Só para não voltar a encará-lo”, confessou ao
agente. Graciano, que não é
empregado na oficina, pareceu-lhe ter avistado o gerente no átrio do banco,
nessa manhã. Quando tocou no assunto, ao falar-lhe, Vicente Lopes pareceu não
o ouvir, só preocupado em que a porta ficasse entreaberta. Não se recolheu o
depoimento de Manuel Lúcio. O homem adoeceu com certa gravidade e ainda não
recuperou… A hora provável da morte,
dada pela autópsia (entre as 10h30 e as 12h00) condizia com a notada pelo
agente Antonino, logo que o cadáver foi levantado. O relógio de pulso, talvez
parado pelo peso do corpo, na queda, marcava 11h10. Na posse destes dados e
apesar do seu empenho, o agente Antonino tinha sérias dúvidas e hesitava em
concluir um relatório credível, uma vez que a complexidade deste enigma, que
parece simples, estava em entender como ocorreu a morte do gerente. Será possível que alguns
dos confrades policiaristas queiram ajudar o
Antonino? |
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© DANIEL FALCÃO |
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