Autor

Sherlock Amador

 

Data

Setembro de 1983

 

Secção

Velharias Policiárias [9]

 

Competição

Velharias Policiárias

Problema nº 9

 

Publicação

XYZ-Magazine [28]

 

 

O CASO DOS PLANOS SECRETOS

Sherlock Amador

 

Deviam ser perto das duas horas quando transpus a escadaria da 3ª Secção de Estudos Espaciais. Identificando-me junto ao porteiro da entrada principal, fui acto contínuo, levado à presença do principal engenheiro daquele Departamento de Estudos.

Após os cumprimentos da praxe, Santos Veiga, assim se chamava o engenheiro, pôs-me ao corrente do motivo porque me tinha telefonado com tanta urgência.

O caso era o seguinte:

Um seu colega, o engº Silva Paiva, chefe dos serviços radiocomandados, desaparecera sem deixar vestígios e, o que era mais grave, não se encontrava a chave que devia abrir a porta do seu gabinete.

– Quando e porquê deram pela falta do vosso colega? – indaguei.

– Foi há coisa de meia hora, quando se preparava uma reunião para estudarmos a possibilidade do aproveitamento da «Energia Aquosa» que notámos, eu e os restantes membros do conselho, que o engº Paiva não aparecia. Telefonámos para o seu «apartement», e como não obtivéssemos qualquer resposta, resolvi meter-me no carro e, juntamente com o Orlando, o porteiro, fomos a sua casa. Também do mesmo modo não obtivemos qualquer resultado.

– E porque não avisaram nessa altura a polícia? – perguntei.

– Porque não queremos dar publicidade ao caso. Conhecemos a sua discreção e capacidade, por isso entendemos que seria melhor chamá-lo do que à polícia.

– Está bem – anuí, envaidecido pela honra de que não me achava merecedor.

 

Posteriormente, e depois de se ter obtido uma autorização especial para nos servirmos dum duplicado da chave que existia só para casos especiais, encontrei-me no interior dum luxuoso gabinete de trabalho do mais perfeito estilo moderno. Num relance observei que coisa alguma estava fora do seu lugar. Somente o que me saltou à vista, foi a secretária de trabalho do engº Silva Paiva. Embora de linhas modernas conforme o restante mobiliário, o seu sistema de arrumação era em tudo Idêntico a uma secretária normal. Depois de a examinar detalhadamente, notei não haver quaisquer sinais de arrombamento ou que as gavetas tivessem sido forçadas. Por sinal, até, cinco das seis gavetas estavam abertas. Só a segunda da esquerda estava fechada à chave.

No entanto, o engº Santos Veiga fora ao cofre privado buscar a chave, e depois de se ter aberto aquela gaveta, todos os circunstantes notaram que o pequeno cofre de aço que ali devia estar, havia desaparecido juntamente com documentos secretos de alto valor estratégico. Confirmava-se assim o receio dos membros do Conselho de Estudos Espaciais.

 

Sentado numa cadeira giratória, ouvi, de Orlando, o seguinte depoimento:

– Devia ser perto da uma hora quando dei pela entrada do sr. engº Silva Paiva. Devido ao frio que fazia e ao intenso nevoeiro, o sr engº vinha um pouco embuçado no seu sobretudo e, mal pronunciando as boas noites, vi-o dirigir-se para o seu gabinete. Depois disso não o tornei a ver.

– Mas não estava no seu lugar quando ele saiu? – perguntei, ao mesmo tempo que procurava examinar as reacções de Orlando.

– Sim, senhor. Estive sempre à porta, exceptuando o momento em que fui ao gabinete de desenho onde, afinal, não estava ninguém. Ainda estou para saber quem teria sido o brincalhão que me fez essa partida. De resto não sei mais nada.

Sem fazer qualquer comentário, levantei-me e pedi que fôssemos a casa do engº Silva Paiva. No entanto, antes de partir, fiz um telefonema para o Departamento da Polícia de Investigação Criminal e, dessa forma, obtive a licença que desejava.

 

A porta do «appartement» do engº Silva Paiva fora aberta por um perito oficial. Na ante-câmara, quase junto à porta de entrada, jazia, caído de bruços, o corpo inanimado daquele que em vida fora o engº Silva Paiva.

Com todo o cuidado levantei-lhe a cabeça, notando que o sangue que empoçava o «parquet», provinha dum pequeno orifício existente no parietal direito. Na dextra, um pedaço de papel estava amarfanhado entre os seus dedos crispados. Com algum custo, consegui apoderar-me daquele fragmento sem o rasgar. Examinando-o devidamente, notei que pertencia a um calendário antigo, existente numa das paredes da ante-câmara, e que representava o segundo signo do mês de Maio. Fora isto, nada mais havia que me chamasse a atenção.

Maquinalmente, com o pedaço de papel na mão, sentei-me num sofá onde me quedei absorto nos meus pensamentos durante uns quinze segundos.

Depois, bruscamente, como que impelido por uma mola, peguei no telefone e fiz uma chamada para o aeroporto. Quando acabei fiz uma outra para a Polícia Internacional, explicando pormenorizadamente os acontecimentos.

Vinte e quatro horas depois dei por findo o meu trabalho quando soube que tinha sido preso no estrangeiro o autor do roubo dos documentos secretos e da morte do engº Silva Paiva.

Mas antes de terminar este pseudo-relatório, gostaria que os meus prezadíssimos colegas – a quem fico muito grato por todas as atenções recebidas dissessem de sua justiça, o que lhe parece este caso, verdadeiramente FORA DA LEI!...

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO