Autor

Zé Chery

 

Data

Fevereiro de 1980

 

Secção

Enigma Policiário [47]

 

Competição

1º Grande Torneio de Fórmula Um Policiária e Torneio de Homenagem a Jartur

Problema nº 2 | Grande Prémio da Póvoa de Sta. Iria

 

Publicação

Passatempo [69]

 

 

OS CIGANOS, A BURRA E O MORTO

Zé Chery

 

– Oh! Senhor guarda, «na» vai pensar «ca gente» matou o homem.

– Mas roubaram-lhe a burra.

– «Na» senhor guarda. «Na» roubamos a burra. «A gente» chamou-a p’ra ver se ela era mansa e ela veio.

– Histórias. Vocês têm todos uma grande «lábia».

– Isso «na» é verdade, senhor guarda. P’ra alminha da «su» mãe deixe «a gente» ir embora.

– Mais devagar. Contem lá a vossa história.

– Senhor guarda, estivemos acampados no «fragel» aí por detrás da quinta do senhor Antunes. Estivemos mais tempo porque a nossa mula morreu.

– Vai daí roubaram-lhe a burra.

– Bem… ela é que veio…

– Adiante.

– Engatámos a carroça p’ra vir embora, quando eu e aqui o «mê» cunhado ouvimos gritos. Corremos ao paredão da quinta, o «mê» cunhado Juanito levantou-me e eu espreitei por cima.

– Que viu?

– Ai senhor guarda! Estendido de costas, estava o senhor Antunes com o peito anavalhado, a deitar sangue por todos os lados. Aquele senhor ali ia a fugir.

– O Barbosa?

– Sim, esse, senhor guarda.

– Continue.

– Quando vi aquilo pensei logo que ia dar sarilho. Como «a gente» não gosta disso, meti mulher e os filhos na carroça. Ia partir quando apareceu aquele ali.

– O Pires?

– Sim, esse. Vinha da estrada do lado contrário à quinta, trazia uma espingarda que apontou à gente e gritou: «Seus … roubaram-lhe a burra e agora matam-no».

Logo a seguir apareceu esse Barbosa. Vinha do lado da quinta, esbaforido e berrou: «Foram eles, compadre Pires, eu vi esse» – e apontou para mim – «saltou o muro mesmo à minha frente». E pronto, senhor guarda. Mas é tudo mentira.

O guarda pensou um pouco e virou-se para os outros dois.

– Que tem a dizer, Pires?

– Vinha da caça. Antes de ir para casa, ia levar um coelhito ao meu compadre Antunes, quando vejo um desses malandros saltar o muro. Calhou trazer a arma, que estes não são de confiança…

– E você, Barbosa?

– Eu ia falar ao meu vizinho Antunes, quando vi esse malandro a esfaqueá-lo e saltar o muro quando me viu. Corri para o portão e contornei o muro. Fui encontrar o Pires com eles filados na mira da espingarda e a dizer-lhe «roubaram-lhe a burra e agora mataram-no».

O guarda olhou o corpo do Antunes. Tinha efectivamente sido morto há pouco tempo. O chão estava sulcado de pegadas indefinidas. O muro teria uns 3 metros de altura, era arredondado no topo, rebocado e caiado de branco, com rodapé azul. Naquela zona da quinta não havia árvores nem, quaisquer outros objectos. Tinha uns criadores de couves, de alfaces e pouco mais.

– Vocês estão presos, disparou de chofre, fazendo sinal ao seu colega, evitando eventuais surpresas.

 

PERGUNTA-SE:

1 – Quem recebeu voz de prisão?

2 – Que acusação pendia sobre os detidos?

3 – Como chegou a essas conclusões?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO