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22 de Março
de 1957. É publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do
Mistério…”, orientada por Jartur – curiosamente, por lapso tipográfico,
identificado como “Mr. Dartur”. Domingos
Cabral, com 15 anos completados recentemente, responde ao problema naquela
inserido – “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o
“namoro” que à modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto
com a Secção do “Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo,
por isso, que era habitual o uso de pseudónimo, e perante a dificuldade que
sentiu na escolha, rápida, de um, acabou, por associação, por perfilhar o
“Inspector Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias),
concebido pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube
do Aranhiço”. Escolha pouco feliz, de facto, já que ninguém inicia a
construção de um edifício pelo telhado e o principiante começava, nada
modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 31 de Dezembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL
(do livro com o mesmo título, a editar) 68 3º PARTE – CICLO SECÇÃO “PROBLEMA
POLICIAL” – DE A. ARAÚJO PEREIRA SEMANÁRIO JUVENIL “O MOSQUITO” Problema n° 19 1. Jorge Dunder odiava a
senhora Ana Armento; um dia, ao encontrá-la teve uma violenta discussão.
Irado, agarrou-a bruscamente, fazendo-a cair… 2. Convencido de que a
ferira, alucinado, não encontrou melhor estratagema de que simular um roubo.
Tirou-lhe a carteira e… 3. Correu para a
estrada, preparando-se para fugir na sua bicicleta, quando surgiu um polícia.
Dunder estremeceu, mas recuperando ânimo gritou-lhe: 4. Vem a propósito. Está
aqui o corpo de uma mulher! 5. O polícia acorreu e
olhando para o ponto que Jorge indicava, distinguiu um ombro no meio da relva.
– Vi-a agora mesmo, disse Jorge – estará morto? 6. É a senhora Armento,
disse Jorge. – Felizmente está viva – exclamou o polícia. 7. Podemos levá-la para
aquela casa? Sugeriu o culpado. Alguns minutos depois os
dois transportavam a senhora, que ainda não… Não havia recuperado os
sentidos. – O senhor conhece bem
esta quinta – disse-lhe o polícia, agarrando-o por um braço – e sou obrigado
a prendê-lo. QUE MOTIVO INDUZIU O
POLÍCIA A PROCEDER ASSIM? * * * Problema n° 20 1 – O senhor Vanderer
convidou dois dos seus amigos para lhes mostrar uma pedra preciosa de
altíssimo valor. Os convidados retiram às 10 horas da noite. Ainda não tinham
sido decorridos dez minutos quando Vanderer ouviu um grito. Acorreu ao
escritório e encontrou desmaiada a sua dactilógrafa. 2 – Pelas onze horas,
Vanderer explicava ao inspector Rosan que suspeitava dos seus dois amigos.
Interrogada, a dactilógrafa contou que entrara no escritório para ir buscar
um livro quando foi ameaçada por um homem mascarado que lhe apontou uma
pistola. 3 – Gritara, e o homem
fugira precipitadamente pela janela. Depois caíra desmaiada. O inspector observou a
janela minuciosamente. Após essa inspecção dirigiu-as à dactilógrafa dizendo:
– A senhora mentiu! QUE INDUZIU O INSPECTOR
ROSAN A DESCONFIAR DA DACTILÓGRAFA? * * * EXPLICAÇÃO
NECESSÁRIA Os problemas que hoje
divulgamos eram complementados por ilustrações: o primeiro com sete, e o n°
20 com três. Todavia, as cópias que possuímos não reúnem as condições
necessárias para serem aqui reproduzidas – o que naturalmente dificulta
significativamente o trabalho dos solucionistas. Todavia, não tendo
conseguido, entretanto, superar a dificuldade, decidimos publicá-los assim
mesmo, para não interromper o Ciclo. Agradecemos a vossa compreensão. * * * Solução do
problema nº 19 Se só se encontrava à
vista, no meio da relva, um ombro da senhora Armento, que se encontrava
vestido com uma capa impermeável, como poderia Jorge garantir que se tratava
de uma senhora? Esta afirmação traiu-o. Solução do
problema nº 20 Se um ladrão tivesse
fugido precipitadamente pela janela, teria derrubado a mesinha que se
encontrava na passagem e certamente que rasgaria ou amachucaria os cortinados.
Portanto, a dactilógrafa mentiu. * * * TEMA: AUTORES PORTUGUESES DE LIVROS POLICIÁRIOS, SOB PSEUDÓNIMO I – O AUTOR:
W. STRONG ROSS
Foi autor de vários
romances policiais sob o pseudónimo de W. Strong Ross, com os personagens
Lord Robert Marcolm, Inspector Ryan, Charles de Winters e Dr. Chase. “Francisco Valério
Borrecho de Rajanto de Almeida e Azevedo, vocacionado para as Letras, chegou
a frequentar o Curso de Letras, especializou-se em Arte de Teatro, Canto,
Arte de Bem Dizer, Fonética, campo em que escreveu e editou onze peças de
teatro, representadas tanto por companhias nacionais, como estrangeiras. Foi
dramaturgo, poeta, jornalista, compositor, ensaísta de ópera e de teatro sob
os nomes de Francisco Azevedo e Valério de Rajanto e pseudónimo Paulo
Santelmo. Possuindo vasta cultura no domínio da comédia, drama, crítica
social, história, filosofia, estética, escreveu ainda 13 romances policiários
com o pseudónimo de Strong Ross, que despertaram não só a curiosidade, mas
também o interesse dos adeptos policiários, porquanto, cada um por si, além
do surpreendente e vigoroso poder de confabulação do imaginoso ao real da
existência é, plenamente, um estudo ao conhecimento e ao secreto das almas
humanas. Notável psicólogo, W. Strong Ross mostra-nos páginas vivas e
sangrentas dos seus romances, sem rebuço, a vida, os medos interiores, a
estrutura física e psíquica dos seus personagens e a revelação de abomináveis
complexos que matam as almas, arruínam as existências, por vezes fatais taras
hereditárias conscientes e letais e que não sabem ou não querem fugir, traçando
um destino fatalista.” O último evento social
em que participou terá ocorrido em Santarém, onde, a nosso convite,
participou no Convívio Policiário que aqui promovemos em 1979, no qual os
seus livros integraram a Exposição de Literatura Policial Portuguesa que
integrou o programa daquele. II –
BIBLIOGRAFIA POLICIÁRIA DO ESCRITOR: 1. Cemitério Sem Cruzes
– (1956): 2. Aquela Casa Amarela –
(1859): 3. A Ciência do Monstro
– (1959); 4. Os Crimes da Carne –
(1959); 5. O Subconsciente Viu
os Crimes… – (1959): 6. Um Processo Singular
Subconsciente – (1960): 7. O Caso De Leicester
Square – 1961): 8. A Morte Escolheu… –
(1962): 9. A Rede Vazia –
(1963): 10. Tentações Perigosas
– (1963): 11. As Corujas Piam De
Noite – (1964): 12. O Homem Que Morreu
Muitas Vezes – (1964): 13. A Fantástica
Experiência: Romance de Ficção e Ciência – (1965): 14. A Escalada dos
Espiões – (1967): 15. Na Sombra E No
Silêncio (1967): 16. Fantasma No Espelho
(1970): (12 destes livros foram publicados na
“Colecção Criminalidade”, da Coimbra Editora). III – OS
PERSONAGENS DE W. STRONG ROSS In “Os Crimes de Carne” Lorde Robert Marcolm não
era madrugador. Levantava–se às nove horas, tomava banho e barbeava–se. O seu criado particular,
Andrews, trouxera–lhe para o seu gabinete de trabalho, o pequeno–almoço:
sanduíches de carnes frias, um ovo cozido e café com leite. Este gabinete, afinal,
era uma ampla sala, com tanto de fausto como de severidade. O fausto provinha
da riqueza dos móveis, tapeçarias, quadros e objectos decorativos; a
severidade ressaltava do aspecto arquitectónico, do alto tecto apainelado, do
formidável fogão sustentado por colunas de mármore, e das portadas e janelões
de grande amplitude. Lord Marcolm tinha então
a idade de 33 anos. Era ainda solteiro. Criatura admirável! Um conjunto de
qualidades físicas, mentais e morais, digno do mais alto apreço. A Natureza
foi–lhe pródiga. Bastante alto, muito
belo, os olhos cinzentos e luminosos, os cabelos–castanho claros, ondulados e
fartos, e, na pele, uma palidez aristocrática que lhe concedia alta
distinção, Lord Robert Marcolm era um homem perfeito, um daqueles exemplares
humanos admiráveis, e dignos de servir de modelo para as estátuas de Apoio e
Antinos. Forte e esbelto, mestre em desportos, riquíssimo, barão e marquês
hereditário, ainda possuía, como suporte máximo destas óptimas condições,
urna estrutura moral, perfeita e imaculada. Senhor de uma inteligência forte,
viva, era formado em Ciências Histórico–Filosóficas. Possuía grande cultura
geral. Era um sociólogo, um filósofo, um psicólogo. O seu amor pelos assuntos
de Criminologia revelava a formação do seu espírito ordenado e justo. Sem
egoísmo, e até com sacrifícios, perseguia o crime por amor à ordem social e
para defesa das pobres vítimas dos criminosos. Não tolerava o mal, quando
praticado sem razão nem direito. E mesmo com o direito da razão, não aceitava
o supremo crime, isto é, o crime do homicida. Só admitia, em certas condições
excepcionais, o caso de legítima defesa, ou seja, o direito de alguém matar a
fera, ou o homem, que o ia matar. Enfim: o seu carácter
afectuoso e leal, o seu trato, elegante e cortês, tornavam–no uma criatura
exemplar, amada por todos. Era o aristocrata, o homem de bem, em tudo. E
também era “le prince charant”, o ideal sonhado por muitas e belas Ladies... Ah! Mas ele era tão
difícil, tão discreto… Eram dez horas e meia
quando Lord Robert Marcolm entrou no gabinete do Inspector Ryan, na Scotland
Yard. – Oh! Milorde! Que
grande prazer em vê–lo! –Viva, meu caro Ryan.
Folgo de o ver bom. Os dois homens, amigos
sinceros e colaboradores desde há alguns anos na caça aos criminosos,
apertaram–se as mãos com a maior cordialidade. – Já sei o que o trouxe
aqui, milorde. O assassinato de Lady Emily Jason! – Acertou, Ryan! Estou
bastante impressionado. IV – O
PENSAMENTO DE UM PERSONAGEM In “Os Crimes de Carne” Estou na perspectiva de
mais um facto sem remissão. Tenho de o realizar. A carne é cheia de fomes e
sedes. E estas, matam-se com a morte de outra carne. É uma lei fatal; mas
ignorando–a, forjou–se outra lei. E esta determina que é crime toda a morte
forçada. Menos a dos animais! Coitados! Não fazem leis que lhes defendam a
pele. Ah! Mas os desejos da carne não admitem peias, mesmo nos humanos e
mesmo à custa de mexer nas fatalidades. A carne, quer carne: viva e morta. E a Fatalidade, com a
sua mão de chumbo enrubescido, chama–me e aponta–me o velho caminho do meu
Destino. É um caminho inevitável, bem o sei… E é a chama vermelha do sangue
que o alumia. Decerto… A força causal do acontecer pessoal e a nossa única
verdade. Mas saberei eu, exactamente, qual é a sua verdade? E alguém sabe,
exactamente, qual é a sua verdade? Quais as etapas de emoções e de sensações
e quais os trabalhos do cérebro que forçam uma pessoa a engendrar o seu
crime? Quais as razões das causas? As aparências forjam as suas razões de
verdade, mas nem as aparências e nem as suas razões são iguais para todos. Há
aqui uma contingência e uma relatividade que reduzem a fumo as opiniões
preconceituosas. Porquê? E isso, que importa? Não. Ninguém me pode interrogar
sobre o porquê do que faço, do que fiz e do que farei: – o inexorável não dá
respostas, porque não há porquê? E para quê? Portanto… o meu desdobramento é
uma verdade da vida. Verdade que é quase inverosímil, por ser quase
fantástica. Assim, sou como que irreal, um motivo que não provoca opiniões,
já que não invoco as minhas razões nem procuro o aplauso de outras razões. O
meu segredo – que é a minha vida – põe–me fora da vida, ainda que eu esteja dentro
dela, e que, nela, crie vidas e aniquile vidas… O enredo dos paradoxos? Bem
sei… Eles são os frutos inverosímeis, mas forçosos, das minhas anomalias. Sou
urna Fatalidade engendrada, e vítima de outras Fatalidades. Para tudo há razões: o
nada, não tem matriz para conceber filhos ou, como quem diz, resultados. Mas
felizmente que as razões das coisas não são idênticas para todos: há
discrepâncias e também há o vício da discórdia… Da discórdia, esse produto da
moral. Se não houvesse moral, só haveria inocência. Até crime… Não poderia
ser outra coisa, senão um acto inocente da Natureza: minhoca contra minhoca,
tigre contra tigre: tragédias sem comentários morais e jurídicos. Apenas a
paz, e o triunfo da vida mais válida, para o vencedor.
Fontes: Secção Correio Policial, 31 de
Dezembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 30 de Setembro de 2026 | Luís Rodrigues |
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© DANIEL FALCÃO |
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