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BANQUEIRO DEGOLADO | Onaírda Capítulo
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HÁ
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CAPÍTULO FINAL 1. QUANTOS LADOS TEM UM TRIÂNGULO Detective Jeremias
O texto que
agora se apresenta, não se destina a um público infantil antes pelo contrário,
tem como alvo todos que de forma desinteressada têm acompanhado a
investigação de um horrendo e sanguinário crime. Em rigoroso
exclusivo temos o privilégio de oferecer o total e completo esclarecimento de
O caso do bancário degolado. Tudo será aqui desvendado, pondo um ponto final
num enigma aparentemente indecifrável. Tempicos estava num beco sem saída. Não estava sozinho, é
claro, tinha com ele vários investigadores da Judiciária, que continuavam em
palpos de aranha, sem conseguirem encontrar o culpado no caso do banqueiro
degolado. Além disso, Tempicos continuava com os
pesadelos habituais nos quais acordava casado sempre com uma personagem
diferente, qual deles pior que o anterior. E mais, a sua vida pessoal
continuava no mesmo caos. Resolvera desistir de engatar viúvas, mas afinal
andava enrolado com a boazuda que o contratara, viúva do falecido que morrera
assassinado como um peru em vésperas de Natal. Para agravar a situação, todas
principais suspeitas lhe traziam à memória lembranças de outros tempos,
longínquos ou mais recentes, e não fora capaz de lhes resistir aos encantos. Entre os
banhos nocturnos na piscina da Quinta da Bicuda, os
pequenos-almoços com champanhe e foie gras, os almoços de paelha, jamón e vinho, e os jantares de
sopa de beldroegas, pedacinhos de pão caseiro e tinto alentejano, é bom de
ver que ao mesmo tempo que lhe faltavam os furos para ir alargando o cinto,
também lhe faltava o tempo para a investigação do crime. Cansando de
tanta fartura, com o ego de rastos, encheu-se de brios e decidiu,
corajosamente, dar por terminadas – ou interrompidas – as actividades
amorosas. “Vou resolver esta treta de uma vez por todas, ou não me chame Tempicos!” Telefonou às
namoradas, prevenindo-as de que iria estar ausente durante 24 horas: “Vou
estar incontactável. Uma missão de nível máximo de confidencialidade”. E
acrescentou, para dar maior credibilidade à mentira. “É um código vermelho”. Depois
armou-se em detective de filme americano e alugou
um quarto numa pensão rasca na Travessa do Fala Só e disse que não queria ser
incomodado. Apesar de estar um lindo dia de sol, fechou a janelita e acendeu
a luz da mesinha de cabeceira para criar clima. Esticou-se na cama, meditou
durante três horas e optou por delinear uma estratégia para encontrar o
culpado do crime do banqueiro: uma técnica da sua autoria que chamou de
“Abordagem Minimalista de Tempicos”. Consiste em
reduzir um caso ao essencial, libertando-o do entulho que dificulta a
identificação do criminoso. Escrevinhou no bloco. Arma do crime – nova/aço fino; Viúva – maiores benefícios €€€ com marido vivo. Suspeitas: Henriette
/Margarida / Clara Aqui o Tempicos fez uma pausa na escritura, coçou a cabeça e
sorriu com os seus botões. “Se isto fosse um enigma policiário, publicado num
jornal de domingo, a culpada era a Katinha, ou
melhor a Margarida, a espanhola morena que de visita a Toledo comprara um recuerdo típico da terra”. O diabo é que
as três madames tinham um álibi de ferro e aço para a altura do crime:
convidadas para uma festa do Jetset no Algarve, com direito a fotos nas revistas
cor-de-rosa. Tempicos rabiscou um triângulo no papel. “Três lados,
três mulheres para um pinga amor endinheirado. Três
mulheres roubadas. As três graças de Ruben depenadas. Três tristes tigres que
às duas por três foram enganadas”. Tempicos divagava sem chegar a lado nenhum. “Três,
triângulo, trialto, três, triângulo amoroso, menage a trois.
Ciúme, traição, vingança”. Tempicos, agitado, vasculhou os papéis e chegou a uma
conclusão. A viúva nunca fora considerada suspeita. Fora ela a chamar a
polícia. O marido vivo garantia-lhe um pingue-pingue
inesgotável de euros. O móbil do crime não fora o dinheiro, o móbil fora o
ciúme. A misteriosa madame H chegara ao limite da paciência e resolvera pôr
fim às aventuras amorosas do marido. Devia estar farta das “sereias” que ele
convidava para a piscina. Tempicos tinha agora a certeza, tudo não passara de uma
encenação astuta: a utilização do recuerdo
da Margarida, o alerta para a Polícia e até a sua própria contratação. A
viúva devia julgar que ele tinha os neurónios enferrujados e que se deixava
endrominar com luxos de Cascais e mergulhos em pelota. Tempicos sentia-se nos píncaros. Olhou para o triângulo
de quatro lados que desenhara no bloco, ligou o telemóvel e disse emocionado:
“Onaírda, podes prender a
viúva!” Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 17 de Maio de 2026 TRIÂNGULO EQUILÁTERO
– Uma História de Faca e Alguidar, Edições Fora da Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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