|
Capítulo
anterior: FINAL 1. –
QUANTOS
LADOS TEM UM TRIÂNGULO | Detective
Jeremias Capítulo
seguinte: FINAL 3. –
MALDITA
REFORMA | A. Raposo & Lena |
CAPÍTULO FINAL 2. HÁ AQUI QUALQUER COISA Zé
A sua mente
revia os pormenores do assassinato do marido de Madame H a uma velocidade tal
que parecia o tambor de uma máquina de lavar roupa no máximo das rotações. A
cabeça girava-lhe tão depressa que Tempicos se
sentia à beira do enjoo… Revia a
conversa com o seu colega Garçôa, a propósito do
crime: – Tempicos, isto não tem nada de complicado! Como sabemos,
o homem foi morto com um golpe no pescoço e esvaiu-se em sangue! Não faltava
quem desejasse a morte do escroque! O tipo era um especulador sem escrúpulos
(como se os houvesse com eles...), um espertalhão que vigarizava os incautos
(sobretudo, as incautas), ficando-lhes com muito dinheiro, que aplicava em
grandes negociatas, sempre lucrativas. Um verdadeiro artista, que nunca
perdia. Se o negócio rendia, ficava com o dinheiro e os lucros. Se não
rendia, o prejuízo era de quem lhe confiara o guito… – Pois é, Garcôa! Mas só temos três suspeitas… Cadê
os outros??? – Os outros estão
muito bem protegidos atrás da rocha. Agora que o mar bate forte, quem se lixa
são os mexilhões. Ó Tempicos,
será que o feminino de mexilhão é mexilhoa? – Deixe-se de
linguísticas de quinta categoria. Vamos é a elas… – É p'ra já, companheiro! Onde é que as há boas? – Atine, carago! Falo das suspeitas… – São três. E
que trêêêês!!! Cada uma vale
muito mais do que o seu peso. Aquilo são mulheres com muito mundo em cima!
Concentre- se nas compras que fizeram nas suas viagens mais recentes... Que
relação podem ter com a arma do crime? v A francesa Henriette foi a Limoges… – E partiu a
louça toda lá, a boa da louraça! Trouxe umas faianças para os amigos e deixou
muitos corações em cacos, na cidade! – Cacos, não!
A arma do crime foi uma naifa de categoria, Garçôa… – Pois…
Deita-se esta fora (mas diga-me onde, por favor) e ficam duas. Dá conta do
recado? – Veremos, Garçôa, veremos… – A Clara,
alentejana e amorosa, não se pode dizer que tenha uma naifa.
Tem um canivete, curto e velho. – Pois é! E o
golpe foi muito fundo e feito por uma lâmina novinha em folha... – Aí está, Tempicos. Foi a espanhola Margarida, que tinha ido a
Toledo (célebre pelas lâminas das suas armas) e lá comprou um recuerdo típico
– um punhal, homem! Caro, mas eficaz. Basta seguir o conselho popular – de
Espanha... nem bom vento nem bom
"casamento"! – Não, Garçôa, não! Isso é muito óbvio. Toda a investigação
aponta para ela, mas ninguém a prendeu! Estranho... Há aqui qualquer coisa
que não se entende facilmente… E Tempicos revirava-se na cama, à procura da solução... Mas
só pensava nela!!! Ela era
(mete-se pelos olhos dentro) Madame H. Com ela tinha ido ao local do crime
dar uns mergulhos na piscina (já limpa, claro, que o sangue suja), nuzinhos como
tinham vindo ao mundo, mas em ponto grande, claro. – Tempicos, vá-me buscar o creme
bronzeador, que está na minha mala, sim?! – Claro,
Madame H. Apetece-me mesmo massajar essa cobra que tem ao fundo das costas… – É uma
tatuagem muito recente, que mandei fazer durante a minha última viagem. Tempicos investe para a mala de Madame, ansioso para ir
massajar aquela mulher sublime. Não foi fácil encontrar o creme, pois estava
bem no fundo, ao lado de uma faca de combate. Marca – Lara Croft, Tomb Raider;
origem – made in Taiwan!!! Horas depois,
a despedida – Adeus, Tempicos! Dentro de X dias,
vou viajar. Não sei se nos voltaremos a ver… Tempicos salta da cama. Ai a garina, que me levou!!! O creme, claro! Óbvio, caramba! Como não vi logo?
Sempre ouvi dizer que o criminoso volta sempre ao local do creme!!!
Foi a gaja quem matou o marido, com a faca de
Taiwan. Já deve ter levantado a massa toda dele dos paraísos fiscais e viaja
esta noite. Vai fugir e levar uma vida de luxo e prazer… Tempicos entra no carro e voa baixinho, em direcção ao aeródromo. Nunca ele conduzira tão depressa –
o ponteiro chegou quase, quase aos 100… Ao chegar,
identifica-se e pergunta – vai levantar algum avião? – Sim,
responderam-lhe. Mas abra este envelope que deixaram para si. Tempicos abre e lê um bilhete: "Sabia
que viria. Como de costume, não chegou a tempo ao ponto certo! Mas dou-lhe
uma segunda oportunidade – vá ter comigo a Cabo Verde! Vai sentir-se no seu
ambiente e encontrar muita gente conhecida. Não se admire! Não há extradição
de lá para Portugal… Um beijão Madame
H." Tempicos corre pela pista, atrás de um avião que descola.
Agarrem-na!!! * * * – Mas agarrem
quem, Tempicos? Estás outra vez a sonhar? Acorda de
vez! – Deixa-me,
mulher. Não a agarrei... – Agarra-me a
mim, homem! Agarra-me a mim!!! – Deixa-me!
Estou cansado, frustrado, desmoralizado… – Ai, Tempicos, Tempicos... Quem te
viu e quem te vê! Bem dizem os teus amigos - o Tempicos
é só fumaça! Muita parra e pouca uva! Dorme, homem,
dorme. É só para isso que tu serves… Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 24 de Maio de 2026 TRIÂNGULO
EQUILÁTERO – Uma História de Faca e Alguidar, Edições Fora da Lei, Ano de 2011 |
|
© DANIEL FALCÃO |
|
|
|
|