Autor Data Maio de 1980 Secção Enigma Policiário [50] Competição 1º
Grande Torneio de Fórmula Um Policiária e Torneio de Homenagem a Jartur Problema nº 5 | Grande Prémio do Porto Publicação Passatempo [72] |
UM CRIME NA ALDEIA Jotelmar Tarde
escaldante de um domingo de fins de Agosto. Num lugarejo transmontano, onde a
canícula se faz mais rigidamente sentir, realizava-se um animado e algo
luzido festejo ao orago da localidade. Insensíveis aos rigores do calor
abrasador, diversos pares, fortemente enlaçados, rodopiavam ao som de uma
fanfarra que, num improvisado coreto, fazia ouvir os seus acordes. Havia
alegria e animação a rodos! Seriam
uma quatro horas da tarde, com o Astro-rei ainda quase no seu apogeu, quando
se ouve um forte estampido, provocado por arma caçadeira, que atinge de morte
instantânea um par de bailarinos: a ela – na cabeça, mais concretamente junto
ao ouvido – a ele, por ser mais alto, em pleno coração! António, que, ao lado
do desditoso par, localizou a partida do tiro, de dentro de um velho prédio
em ruínas (que apenas conservava intactas as 4 paredes, tendo sido o telhado
totalmente desmantelado pela acção demolidora do
tempo), em duas largas passadas abeira-se de uma porta já carcomida e
carunchenta, a única existente no demolido pardieiro, e metendo-lhe os
ombros, lança-a por terra e penetra no seu interior. Desnecessário seria,
aliás, pois a velha porta estava fechada por uma aldrava. Atrás
do António entraram, de roldão, diversos conterrâneos e romeiros, no intuito
de apanhar o assassino e, possivelmente, fazer justiça à sua maneira –
Linchando-o! Porém, vasculhando todos os cantos e recantos, do matador nem
sinais; sumira-se, como por encanto. Mas sumir-se… por onde? As paredes
tinham mais de 10 metros de altura; impossível escalá-las e… mesmo que em tão
curto espaço de tempo isso fosse tentado, forçosamente seria visto por
algumas dezenas de homens e mulheres que circundavam todo o edifício por
fora. No solo e nas paredes nenhuma saída – nem um minúsculo janelo, nem o
mais pequeno orifício sequer. O que todos viram, isso sim,
foi a arma, ainda fumegante e escaldante, em cima de uma velha mesa de 70 cm.
de altura assente numa pequena elevação de solo
térreo, colocada junto da porta arrancada onde ainda se verificava um buraco
num papelão escuro que tapava uma falha de madeira, única abertura na
estrutura da porta. Fora por aí que o tiro saíra. O resto, incrivelmente,
estava intacto! Avisados o Padre e o Regedor, ambos comparecem de imediato,
este para tomar conta da ocorrência, aquele para prestar apoio cristão.
Cumprida esta nobre missão, o Cura voltou-se e vasculhou, qual Padre Brown,
minuciosamente o pardieiro. Nem o mais leve vestígio de presença muito
recente, para além dos que o pessoal tinha produzido à entrada. Só a velha
arma de carregar pela boca. O nosso Cura era certamente um bom amante de
enigmas policiais. Sorriu amarguradamente e pediu ao Regedor que mandasse
toda a gente embora, à excepção de António e Jorge,
que foram ouvidos em seguida. Ambos
eram da aldeia, ambos caçadores e ambos ex-namorados da moça atingida pelo
tiro fatal. António declarou que passara toda a tarde, até ao momento do
tiro, junto do par, tentando provocar o actual
namorado da rapariga que ainda amava e jogar a última cartada para
reconquistar a jovem. Por isso se apercebera tão bem de tudo. Jorge, que
aparecera junto do pardieiro, excitado e visivelmente perturbado, recusara-se
a dizer onde e, sobretudo, com quem tinha passado a tarde. Ouvidos
os dois, o Padre afirmou ao Regedor: não toque na arma até que chegue a
Polícia. Penso que já… (e sussurrou longamente ao ouvido do seu
interlocutor). E, amigos, o que é curioso é que o laboratório da Polícia
confirmou tudo o que o Padre pensava. Para quê relatórios se o nosso Padre
Brown também não precisou deles? Mas vá lá… sempre dizemos que não havia
impressões identificáveis na arma e que o seu proprietário foi presente ao
Juiz. E acusado… Resta
perguntar: A que conclusões chegou o
Cura e, mais tarde, a Justiça? Justifique cuidadosamente a sua tese. |
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© DANIEL FALCÃO |
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