Autor

Mário Campino

 

Data

17 de Outubro de 2004

 

Secção

Policiário [692]

 

Publicação

Público

 

 

NOTA.

Por limitação de espaço não foi publicada a versão integral do problema, tendo sido modificado o próprio título.

A versão integral do problema com o título

O Início, o Meio e o Fim seria publicado em Setembro de 2010 numa edição do Clube de DetectivesPúblico-Policiário (2001-2005).

 

TRÁGICA MATANÇA

Mário Campino

Homenagem ao Zé-Viseu (Gustavo Barosa), um amigo de sempre!

Dedicado a Domingos Cabral (Inspector Aranha/Zé dos Anzóis),

responsável moral pelo reaparecimento do Avô Palaló, cuja última história escrita data de Dez-91.

 

Um largo…

O largo, demasiado nu, não tem alma; mas tem nome… Praça da República! Ali, onde, outrora, pura ironia!, se passeava El-Rei D. João I, frente ao então existente Paço Real.

Aos Domingos, é a “praça dos homens”. Nova modalidade da “venda de escravos”, onde os trabalhadores rurais se submetem ao tormento da escolha e ajuste de jorna. O aluguer do corpo; um ajuste sem ajustantes – só o lado forte decide. Um jogo de pega ou larga, que se aceita, sem alternativa!

Ele, o Manel, 16 anos, baixo, mas entroncado, “viera à praça” pela primeira vez. Ficara-se a tentar compreender e vira-se metido num grupo “p’ró Sr. João Andrade”. Outro não tivera a mesma sorte: “Tu, , Grilo. Tiraste dia p’ra fazendeiro… ele que ta dê trabalho O mê rancho é o da Joana!”.

“Mas, sê J’ão Cebola, com’é ca vou dar de comer ós ganapos? Tenha dó, home

O capataz não cede. Zé Grilo andou por ali, tonto, a oferecer-se. Uma lei não escrita, impiedosa, afastava-o, como se tivesse lepra…

Hora chegada, arrasta-se para fora do largo… ranho e lágrimas misturam-se-lhe no rosto tisnado. Duas mãos caem-lhe nos ombros. São o Manel e o Tóino da Bica: – “Anda… bebes a milhadura, quê bebo”, diz o Manel.

O destino tem caprichos! A semana decorria. Tóino da Bica cuspia nas mãos calejadas, bufava e ia pensando para consigo: “Su parente Delfina m’abonasse a burra, dós caxotes na bunda, a ganfar sardinhas à porta do friguês!” Conseguira a burra e uns trocos, com juros, para a mercadoria. Trocara a burra por mula própria… e depois viera a carroça. Aventurou-se em outras áreas. Sorria à sorte.

Zé Grilo, entretanto, andara léguas, qual rafeiro abandonado. Em peregrinação, desceu a Rua das Faias. D. Rosa Vieira, recém-viúva, carregada de luto, tentava esconder a solidão, raspando as urtigas do abandonado jardim. Zé estacou. Abriu o pequeno portão de ferro e, com um seco “cum lincença”, tirou a enxada das mãos da absorta senhora, que ficou a vê-lo atacar as ervas, com genica. Recatada, foi-se elucidando. Trouxe pão e queijo. Zé encontrou coragem para acenar negativamente, concentrando-se em acabar a limpeza. “Vossemecê m’agêta on canivete p’abicar as canas pós cantêros?” Demorou um pouco a procurar e estendeu-lhe uma faca de mato, comprida e folha larga, que tirou de um coldre. Zé olhou, com apreço, e exclamou: “Catita, sim sinhora”. Atirou-se à tarefa, faca na dextra, cortou e afiou as canas, espetando-as. Quando o sol começou a esconder-se, D. Rosa aguardava com um saco, onde colocara batatas, feijão, bacalhau e algumas moedas. Zé pegou no saco e recusou o pagamento: “ s’ôra! fuim ajustado”. E escapava-se, comovido. D. Rosa fez-lhe frente:

“Escuta, Zé! Amanhã, se quiseres, continuas. Depois, vamos recuperar a horta, podes plantar couves para ti… Leva a faca – era de meu marido. Fica para ti, mas não a percas! E vamos combinar uma jorna…

Zé correu para casa, abafando o alvoroço interior. D. Rosa faria mais: ensinou-o, pacientemente, a ler e escrever, a comportar-se. Facultou-lhe a biblioteca do Doutor Vieira. Ficou viúvo, quando os filhos estudavam, a expensas de D. Rosa. E, quando esta, por sua vez, foi ao encontro do Criador, Zé Grilo mal acreditou que a benfeitora, sem herdeiros directos, lhe deixara todos os seus bens. E o Zé, a quem o rapazio apontava como “o homem da faca”, passou a ser o “Sôr Zé Grilo”.

E o Manel?

Semana a findar. Enxada acima, enxada abaixo, na terra dura.

Chico Abegão, perto, andara de olho no moço, com uma proposta na cabeça.

“Auga! Auga! Atão?”, reclamou uma voz rouca.

“Aí vai… morres da seca…” A “Julha Carapinha”, de cântaro à cabeça e mãos nos quadris, airosa, trigueira, distribuía água. Aproximou-se do Abegão, a encher o púcaro de lata, entornando-o, a olhar para o Manel: “Tamém queres, Manel”?

quero… quero a ti!”, respondeu, corando. A rapariga replicou, de imediato: “Ora… ora… o Palaló! O frango apensa ca tem crista de galo!” E foi-se, enchendo o ar, com voz cristalina…

Rais partam a cachopa”, exclamou Chico Abegão. E aproveitou a embalagem para desafiar: “Olha lá… vais comigo p’ra Salvaterra? O sô J’ão Andrade vai meter searas… Abona p’rá gente ma leira p’ró melão… s'arranjar uns patacos… Que dizes”? Manel reflectiu um só instante: “Conte comigo, sô Chico”.

Dois anos depois, as searas de melão deram-lhe para a compra da terra das Milheiras. Chico Abegão morreu, em glória, nos cornos de um toiro tresmalhado. João Andrade convidou-o para capataz… depois feitor. Casou com a Júlia. Foi pai… avô: o Avô Palaló.

Chega a patrão. Rendeiro nas Ferrarias, proprietário do Foral Velho, Milheiras. Rosto grave e coração generoso! Íntegro, inteligente, observador e intuitivo… era respeitado.

Quarenta anos depois, o velho largo era jardim público. Avô Palaló olhava-o, de longe. A mente, essa implacável máquina do tempo, leva-o do passado distante ao recém-pretérito, ensombrado por fatal nuvem negra. Tóino da Bica, com estúpida cupidez, alheio a conselho, metera-se em águas turvas, que o arrastaram na enxurrada com o Zé Grilo, o confiante fiador. Tóino refugiou-se na bebida e voltou às sardinhas. Zé, pleno de angústia, abalou para Lisboa. Perdera um filho. O outro, estudante de Engenharia, ia saber o lado amargo da vida.

Avô Palaló, ao voltar de uma estadia na Herdade das Ferrarias, soube dos acontecimentos. O Casimiro escrevera-lhe, entretanto, para anunciar que o Zé vivia com o filho. Este deixara o curso e empregara-se numa tinturaria industrial de têxteis, algures em Xabregas.

No dia seguinte, partiu ao encontro do Casimiro, para procurarem o Zé Grilo. Encontraram-no, magro e envelhecido, no armazém da empresa, onde criara simpatias, esperando a saída do filho. Avô Palaló descortinou, por debaixo do casaco puído, a inseparável faca, símbolo único de saudosa recordação. Comoveu-se e abraçou o amigo, lamentando a separação do trio. Pediu que se lhes juntasse, na matança do porco. Zé, de cabeça baixa, cismático, acabou por ceder. Para o Avô, fora um passo positivo.

Verão que se extingue, Outono desperto… e é chegado o grande dia.

No mundo rural, a matança do porco é dia de festa. Ainda o sol se levantava, preguiçoso, por detrás das árvores a despirem as folhas, já o Zé Maria afinava a gaita-de-beiços. Zefa aprontara, na sala de entrada, sobre a grande mesa, garrafas de aguardente e abafado, figos secos e torresmos, para o “mata-bicho” de boas vindas. No quintal, o Manel Hortelão empilhava carqueja, acendera a fogueira de cepas para o braseiro das assaduras, que antecede o almoço. Broa, canecas de barro para a água-pé (13o, para aquecer!) sobre a tripeça. E, quando Rita chegou, com dois canjirões cheios, Joaquim Carrapato, o matador de serviço, que já afiara a faca “matadeira”, aproximou-se: “Memo a calhar… enche aí inté às bordas! Tô cá com uma gana!” Bebeu e foi prender o chambaril na figueira grande, para pendurar o porco, depois de morto. Avô Palaló foi ao pocilgo dar uma palmada no dorso da vítima em perspectiva, como que a despedir-se. Surgiram o Firmino e o compadre Maximiano, a Emília e o Amândio, todo encasacado. O Venâncio e o Casimiro chegaram, enfim, com o Zé Grilo – Zé e a sua faca. Este lançou um tímido “ora viva, pessoal”! Aqueles distribuíram abraços e gargalhadas. Quando o Tóino da Bica apareceu, um tanto “carregado”, da passagem pelas tascas, para ganhar coragem, ficou-se à porta, a mastigar uma cabeça de alho. O vizinho Serôdio empurrou-o para dentro, murmurando entre dentes: “Havera  qu’im t’abrisse os cornos”! Foi Zé Grilo quem salvou o momento de embaraço, estendendo ao Tóino um copo da “rija”. Este retribuiu com um punhado de passas. “Tudo em paz”, pensou o Avô, satisfeito. E, em voz alta: “Vamos ao bicho, rapaziada!”

“Tira uma febra para dois… para mim e o Tóino”, pede o Zé Grilo. Recebe a carne, o Tóino polvilha-a com sal e é posta nas brasas. O Zé tira a faca do coldre, retira o papel vegetal que a protege e queima-o nas labaredas da carqueja sobrante. Assada a carne, tira-a com uma vide e volta-se para o Tóino:

“Que lado queres?”

Tóino responde: “O mais gordo!” E, sem se importar com a quentura, pega no pedaço de carne escolhido. O Zé experimenta o fio da faca no polegar esquerdo, segura a outra ponta da febra, queima-se, lambe os dedos e volta a agarrá-la, utilizando a faca de baixo para cima, como um canivete. Lentamente, corta a carne em duas metades. Comem com deleite. Tóino devora a sua parte. Pega numa das canecas que o Serôdio acabara de atestar, bebe e deixa-a cair, com um grito… um urro de vómito não consumado. Vacila, com a respiração estertorosa. Ia cair, se o Avô Palaló, que observara com agrado a partilha da carne, o não amparasse. Em convulsões intensas, foi levado para um quarto e estendido na cama. As mãos estavam frias, os olhos muito abertos, de pupilas dilatadas pela perturbação respiratória.

“Ca ganda carraspana”, comentou o Serôdio, que não morria de amores pelo Tóino.

O patrão Palaló pediu que trouxessem café bem forte. Mas, quando chegou, foi impossível dar-lho a beber – o homem espumava e debatia-se, como de crise epiléptica. Sossegou, depois, abatido pelo esforço. Sombriamente, o dono de casa pediu para saírem e mandou o Manel Hortelão buscar o Dr. Chico Godinho, muito depressa. Foi encontrar o Zé Grilo, muito pálido, junto do tanque grande, enxugando as mãos com as mangas da camisa. Este perguntou pelo Tóino e comentou: “Começou muito cedo a enfrascar-se no álcool”…

Foram os dois ao quarto. Tóino estava em coma. E, quando o Dr. Chico chegou, meia hora depois, limitou-se a anunciar: “O homem está morto, Manel! É preciso chamar o Sargento Ambrósio.”

“Intoxicação alcoólica?”, indagou o Sargento, quando chegou.

“Possível, mas não certa. É preciso tirá-lo daqui, para uma autópsia. Cheira a vinho e alho que baste, para descortinar qualquer outro cheiro. Quero saber o que significa aquela banha curada, na boca do morto.”

Naturalmente que ainda se comeu e bebeu; porém, sem fome, sem sede, sem alegria. E, quando o Avô Palaló, na manhã seguinte, foi ao tanque, para mudar a água, como habitualmente, enterrou duas pequenas rãs, que encontrou mortas, na pequena pia, debaixo da torneira de escoamento. Ouviu a voz do sargento Ambrósio, que se aproximava com dois companheiros: “Olhe, Manel, estes senhores são da Judiciária. Vêm fazer uma investigação…”

“Não há nada a investigar. Eu sei o que se passou”, interrompeu o Avô Palaló.

 

E vós, leitores, também sabeis?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO