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Capítulo 2 (propostas) Dic Roland |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 2 Proposta de Dic Roland Madalena chegara, de facto, ao aeroporto da Portela, num cinzento e chuvoso fim de tarde. Era o Dia do Trabalhador, feriado que muitos aproveitam para não trabalhar... Talvez por isso, Madalena precisou de hora e meia para tomar um taxi, já debaixo de chuva. Ansiosa por chegar a casa, pôs de parte a ideia de contactar nessa noite com amigos e vizinhos. Decerto a convidariam para jantar ou iriam mais tarde, a saber novidades; e, na verdade, preferia não falar do seu regresso e das circunstâncias que o determinaram. Uma chamada, porém, era inevitável. “Cheguei bem. Óptima viagem, apesar do mau tempo. Espero as tuas notícias.” Madalena, recostada à cabeceira da cama, manteve-se por minutos naquela posição, olhos semicerrados, o telemóvel sobre o peito. Depois, molemente, ajeitou-se melhor ao longo do edredom, tirou os sapatos com um leve toque nos pés, estendeu o braço para a mesa de cabeceira e, tacteando e premindo o interruptor, desligou o candeeiro. Dispunha-se a “passar pelas brasas”, meia hora que fosse. Pela janela, de persianas descidas mas não completamente cerradas, coava-se a luz forte da rua, projectando um tracejado brilhante na parede fronteira. Numa curiosa associação de ideias, Madalena via, em cada um desses traços, a luminosa evocação dos bons momentos passados com António, desde o trambolhão do Malaparte no café da Praça das Flores. Abençoado “encosto” da empregada brasileira, para quem trazia, em jeito de secreta recompensa, uma lembrança de viagem… Depois disso, os encontros da manhã, numa única mesa, passaram a ser habituais, proporcionando uma tácita cumplicidade entre o “bretzel” e o “croissant” (o primeiro, muito senhor da sua origem anglo-saxónica e retorcido sobre si mesmo numa elegante espiral de massa folhada; o segundo, de estirpe francesa, voluptuosamente enrolado nas suas curvilíneas protuberâncias, em forma de crescente lunar). Por fim, a viagem e as suas peripécias!… E naquele traço da primeira fila, com um brilho mais vivo, mais ofuscante, não pôde Madalena deixar de reconhecer a muito previsível “surpresa” da primeira noite em Vila Moura. O sono tardava, porventura afugentado pela voz de António, ainda a ecoar nos ouvidos de Madalena: “Que pena, querida, que não tenha sido possível continuares comigo, aqui em Madrid!…” Em Madrid? Sim, Madrid! Porque, à revelia do planeamento inicial, o programa acabou por sofrer uma profunda alteração. A visita a Capri, sugerida por Malaparte, teve de ser adiada por inesperados contratempos. Para começar, uma pequena avaria obrigou a morosa retenção do automóvel numa oficina de Castellon… Mas António, optimista por natureza, encontrou uma rápida solução para o assunto e decidiu compensar a forçada interrupção com cinco dias em Ibiza! Madalena aprovou a ideia e até fez um jocoso comentário: “Já devias saber, querido António, que não há Rosa sem espinhos!…” Em suma: é fácil concluir que os dois turistas estão a viver no melhor dos mundos possíveis, como diria o famoso Pangloss. E o que, de começo, foi apenas uma tímida aproximação entre um “bretzel” e um “croissant”, passou a ser uma ousada atracção entre o leitor do “Notícias” e a leitora do “Público”! Mas acrescente-se que o grande responsável por esta convergência, agora revelada sem complexos, não foi o “bretzel” ou o “croissant” e, menos ainda, o “Notícias” ou o “Público”. Foi, sim, o romancista Curzio Malaparte, autor do livro apanhado do chão. À gentileza do jurista não ficou indiferente a gentil criadora de alta costura. As ideias que recolhia do jornal para eventuais criações de novos modelos, passaram naquela altura para segundo plano. Malaparte era um tema em que se sentia perfeitamente à-vontade e no qual, fiel à sua arte, não dava ponto sem nó… Tema que oferecia, além do mais, duas inesperadas vantagens: era mais interessante do que as pregas e decotes de um vestido; e fora trazido à colação por aquele habitual frequentador do café, simpático, boa figura e cortês. Colocada perante a pergunta “Lê Malaparte?” – feita, ao que parece, à boa maneira de La Palisse, pois era notório que o título da obra não sugeria Proust ou Descartes – respondeu Madalena com a mesma impressionante precisão: “Leio.” A partir desse momento o diálogo subiu de nível, descendo simultaneamente a pequenos pormenores da casa do escritor, em Capri. O sono, esse, continuava ausente… As recordações persistiam na mente bem desperta de Madalena; e não eram espontâneas, isto é, não surgiam bruscamente, sem apelo, mas sim voluntárias, porque expressamente chamadas ao seu espírito. Era, por assim dizer, um recenseamento mental dos pontos altos da viagem. E tantos eram, que a ida a Capri deixou de figurar no rol dos mais atractivos e urgentes. “De resto” – argumentava António Rosa, – “mesmo sem Malaparte, e se tivéssemos que planear viagens somente em função de leituras, eu sei de outro autor que lá nos levará, numa próxima oportunidade…” “Também eu” – atalhou Madalena – “Axel Munthe; O Livro de Sam Michele!” “Bravo! Esse mesmo!” – e riram ambos, felizes por coincidirem nas suas preferências literárias. A ideia de Capri surgira, como se viu, da leitura de Malaparte. Mas o homem põe e Deus dispõe… No hotel de Ibiza António encontrou um velho amigo, emigrado em Espanha, que há muitos anos não via. E no decorrer do primeiro jantar em comum, a conversa incidiu sobre “Jubiabá”, cuja leitura José Gomes (o nome do amigo) concluíra nessa tarde. Se bem que conhecessem Jorge Amado, António e Madalena confessaram não ter lido essa obra. Tanto bastou para que o colega insistisse em oferecer-lhes o livro, como recordação daquele encontro. E assim foi que, da leitura iniciada no aconchego do sumaúma e do inevitável “tête-à-tête” (para não dizer “à-bras-le-corps”, que mais fielmente corresponde à realidade), ficou assente uma próxima viagem ao Nordeste brasileiro! Só que, sem se dar conta do problema que iria suscitar, José Gomes falou, num telefonema para familiares de Lisboa, no inesperado encontro com António!… A notícia foi comentada, ao jantar, na presença de uma convidada, por infeliz coincidência também amiga do casal Rosa!!! Na manhã seguinte (estavam já no quarto dia de férias), António recebeu um telefonema-bomba: sua mulher acabara de saber que ele se encontrava em Ibiza, e resolvera ir ter com ele!… António teve o sangue-frio suficiente para iludir a situação (o telemóvel tem as suas vantagens…): fora a Ibiza, de facto, para um contacto indispensável, mas já se encontrava em Madrid… Sua mulher, porém, insistiu na viagem! O relacionamento mútuo era precário e justificava a desconfiança… António e Madalena só tiveram tempo para fechar as malas e partir, com a brevidade possível, para Castellon e Madrid. Madalena ficou no aeroporto internacional e António correu a instalar-se num hotel da Gran Via. Fonte: Blogue Local do Crime, 20 de Novembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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