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Capítulo 2 (propostas) Ma(r)ta Hari |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 2 Proposta de Ma(r)ta Hari O velho e raquítico rafeiro interrompeu a feroz perseguição movida ao irritante persa da menina Lili e deteve-se a farejar o barbudo e esquelético homem que acabara de entrar na pastelaria. Rua, fora daqui cachorro!, gritou com um leve sotaque brasileiro a menina Lili ao fiel inimigo do seu amado gato, que tentava entrar no estabelecimento agarrado às canelas daquele estranho e andrajoso homem. Boby, nome comum à esmagadora maioria dos cães vadios que proliferam pelos bairros populares da velha Lisboa, deu meia volta sobre si mesmo, meteu a cauda entre as patas e ficou quedo e mudo junto à porta da pastelaria. Um bretzel e meia de leite, pediu o homem, enquanto se sentava a uma das mesas e deitava um olhar furtivo sobre o jornal de uma cliente da mesa ao lado: “Casal desaparecido há cinco meses continua sem dar sinais de vida”, lia-se num dos títulos que faziam a manchete do Público. O estranho homem passou a mão pela barba, ajeitou a sua farta cabeleira desgrenhada, esboçou um breve sorriso sem cor e ali ficou apático-pensativo enquanto a meia de leite ia arrefecendo. A mulher que lia o Público, uma cliente de ocasião, residente de uma casa próxima da pastelaria, levantou os olhos do matutino, olhou em volta, pediu mais uma bica e disse para quem a quisesse ouvir: Há coisas do diabo. Eu juro que conheço este homem, aqui do casal desaparecido, mas não sei de onde. A foto é pequena e tem pouca definição, mas tenho a certeza que vi a cara dele há não muito tempo. A empregada brasileira, Lili, que lhe trazia o café, sorriu: Claro que é capaz de o conhecer, mas de certeza que não o vê há pelo menos três semanas. Ele vinha aqui quase todos os dias à pastelaria. Ela também. Coitados. Só Deus sabe por onde andarão e o que será feito deles. Não, não, disse com firmeza a mulher do jornal. Eu vi-o e não foi de certeza há muito tempo. Até parece que o estou a ver neste momento, imagine. O homem ficou inquieto, baixou ligeiramente a cabeça e tomou a sua meia de leite quase de um gole. Pegou no que restava do bretzel, deixou algumas moedas em cima da mesa e encaminhou-se para a porta. Boby abanou a cauda de contentamento, olhou mais uma vez de soslaio com raiva e desdém para o gato persa, deu passagem ao homem e seguiu os seus pesados mas decididos passos, encosta acima, pé ante pata, até ao vizinho e verdejante jardim do Príncipe Real. O estranho e andrajoso homem parou junto da banca dos jornais, comprou o Público e sentou-se num dos bancos do jardim a lê-lo: “Madalena Martins, 25 anos, solteira, e António Rosa, 30 anos, casado, dois filhos, continuam desaparecidos há perto de três semanas. Admite-se que tenham viajado juntos com destino à cidade de Capri, onde supostamente não chegaram. Os seus últimos contactos para as respectivas famílias foram feitos a partir de Castellón, através do mesmo telefone público. Madalena é uma promissora estilista portuguesa e há muito que aguarda uma oportunidade para exibir as suas criações na capital europeia da moda. António Rosa é solicitador numa reputada sociedade de advogados, com sede em Lisboa, e um dos mais conceituados e bem apetrechados coleccionadores de numismática e de filatelia em Portugal“. O homem deixou transparecer uma centelha de orgulho no seu rosto coberto de descuidadas barbas de vários dias e nos seus profundos olhos marcados por tristezas e mágoas insondáveis, fez pela primeira vez uma carinhosa festa no rafeiro boby, que assentou arraiais aos seus pés sem o abandonar por um instante que fosse, e mergulhou novamente todos os seus sentidos no jornal: “A polícia parece acreditar que os desaparecidos estão incontactáveis por vontade própria e recusa-se a dar crédito às teorias que remetem o caso para um eventual crime de homicídio ou sequestro, rejeitando igualmente a possibilidade de um acidente mortal, o que, em qualquer destas três hipóteses, deixaria inconsoláveis duas inocentes crianças que, há perto de três semanas, todas as noites rezam abraçadas à fotografia do pai pedindo a Deus que ele volte”. O homem enxugou com a manga do seu sujo e esfarrapado casaco uma atrevida lágrima, que resolveu marcar presença sem que tivesse sido convidada ou sequer mesmo desejada, levantou-se de um só movimento brusco e dirigiu-se à cabine de telefone pública… Nove dígitos marcados sem deitar um único olhar para as teclas, um “olá, meu querido, como estás?” e uma voz gritada num sufoco de quem sempre acreditou naquele momento. Pai! És tu, pai?! Mãe. Mana. O pai voltou!!!…, ouviu-se do outro lado da linha. O que se passou de seguida já se adivinha. O homem arremessou o jornal para o cesto de papéis, despiu o casaco, arregaçou as mangas da camisa e correu para o 58 da Carris que o levaria até às Portas de Benfica. Por sua vez, boby ladrou quase num choro, ensaiou latidos nunca antes emitidos, abanou de tal forma violentamente a cauda que se magoou no traseiro, rodopiou em volta de si como uma velha e tonta bailarina embriagada e pulou, pulou, pulou e ladrou como se pudesse ou quisesse dizer: O António Rosa voltou! O António Rosa voltou! E a Madalena? O que é feito dela? O que lhe terá acontecido nas últimas três semanas, a ela e ao seu companheiro de viagem? – pergunta-se. Mas isso agora, para o boby, interessa muito pouco. E lá foi ele, mais uma vez, fazer a vida negra ao gato persa da menina Lili da pastelaria. Fonte: Blogue Local do Crime, 20 de Novembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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