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Capítulo 2 (propostas) Inspector Fidalgo |
PASSATEMPO DE ESCRITA
POLICIAL CAPÍTULO 2 Proposta de Inspector Fidalgo Pelo menos era o que parecia quando alguém pediu um “bretzel” com meia de leite. António Rosa, bons olhos o vejam por cá, de novo! Como diz? Não entendo. É António Rosa, não é verdade? Não, sou italiano, chamam-me Toni, é certo, mas não o conheço, é a primeira vez que aqui venho… E fala português? Estudo português em Itália… Não acreditaram nele. Era óbvio que estava a brincar e mais ainda quando pela porta da confeitaria entrou uma moça que pediu um “croissant” com pouca manteiga e um chá verde. Tinha de ser a Manuela Madalena. A história repetiu-se com saudações efusivas e respostas evasivas… Que não, chamava-se Madalena, é certo, mas nunca tinha ali estado antes. Todos os que entravam brincavam com eles e recebiam em troca olhares cada vez mais assustados e confusos. Não estavam a ver bem, Toni e Madalena viviam em Capri, conheceram-se no café do Hotel La Scalinatella, onde ele sempre tomava o seu “bretzel” com meia de leite, enquanto lia o “Corriere Della Sera” e ela um “croissant” com pouca manteiga e chá verde enquanto desfolhava o “La Stampa”. Um dia, tudo se precipitou. De conversa em conversa falaram de Fernando Pessoa e descobriram que ambos tinham os mesmos gostos, frequentavam as aulas de português e que aquilo que mais queriam era vir a Portugal. Toni, com um casamento a dar as últimas e filhos que ajudavam a que saísse bem cedo de casa e a ela regressasse bem tarde, adiantou que podia inventar uma das suas viagens de trabalho a Espanha, aí por duas semanas. Madalena só tinha uma familiar afastada a quem nem devia explicações. Foi o carro de Toni o escolhido, algum dinheiro preparado e partiram rumo a Lisboa, à cidade do Pessoa, queriam ver tudo e mais alguma coisa: onde nasceu, onde morreu, por onde parava, o Martinho e tomar um café com ele no Chiado. De volta em volta, acabaram por parar na confeitaria da Praça da Flores. Ele foi entrando enquanto Madalena foi ao Banco tirar uns euros. Ai isto é caso de polícia, é de certeza! Pode lá ser uma coisa assim, gémeos de cada um a falar quase português, igualzinhos aos outros? A mãe dos filhos de Toni foi chamada e por entre ditos e respostas alertou o agente, que entretanto meteu o nariz pela porta para ver a razão de tal agitação, para um sinal que o António Rosa tinha num sítio que lhe segredou ao ouvido. O agente saiu triunfante da casa de banho. A marca está lá! Não pode ser, nunca andei por aqui. Mas está! A prima da Madalena não apareceu, era afastada, mas pelo telefone contou um segredo íntimo em forma de cicatriz. A dona da confeitaria exultou de excitação. Vamos lá ver isso… Olé, se é! É mesmo a nossa Madalena! Não pode ser, é a primeira vez que aqui vimos, somos de Capri, conhecemo-nos por lá e resolvemos cumprir o desejo de visitar Pessoa, mais nada. Que mostrassem o carro, sentenciou o agente da polícia, cada vez mais satisfeito consigo mesmo. O Mercedes é o do António, sem tirar nem pôr, a matrícula é italiana, mas o carro é o mesmo, até no toque do lado direito, quando bateu no poste da luz. Belíssimo que até o motor tem o mesmo número como acabaram de me informar pelo rádio. Agora, senhor Rosa e menina Madalena, querem deixar-se de brincadeiras. Três semanas se passaram até que, em Capri, na Via Marina Piccola, um telefone tocou, atendido por uma criança. Mãe, é o pai, mas está a falar de um modo esquisito. Deixa, filho, devem ser os ares de Espanha que lhe andam a dar a volta ao miolo… Querida, estou em dificuldades, sabes, em Lisboa… Em Lisboa? Não ias para Espanha? Sim, mas houve algo que não correu bem e estou em grandes dificuldades. Grandes, como? Muito, muito grandes, sou acusado de um crime que não cometi, entendes? Estás onde? Numa esquadra da polícia em Lisboa, fala ao Lucas para ver o que ele pode fazer. Estás sozinho? Bem, estou com uma moça, Madalena, mas não é nada do que estás a pensar… Estão a tocar a campainha da porta, vou abrir, já volto… Cheguei!… Toni, estavas a gozar comigo, afinal estavas aqui e eu, parva, a julgar-te em apuros… Estúpida vida a minha e deixa-te de falar português, ou lá o que é! Luigi, desliga o telefone que o teu pai afinal está aqui! Está bem, mamã… Mas, mamã, a voz do pai continua ao telefone… Fonte: Blogue Local do Crime, 20 de Novembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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