Regulamento

Capítulo 3

Capítulo 3 (propostas)

A. Raposo

Detective Oculams

Dic Roland

Inspector Fidalgo

Inspector Moka

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 3

Proposta de A. Raposo

(aviso à navegação: pede-se ao leitor que acompanhe em pensamento a sua leitura com o som de um violino a evocar o “Luzes da Ribalta” de Chaplin)

 

Madalena retirou o CD do gira discos Sony e voltou a colocar na caixinha de plástico. No interior uma foto a sépia, a cheirar aos anos sessenta, do velho Bécaud, espreitava de olhar langoroso e cigarro na ponta dos dedos.

Madalena passou a mão carinhosa pela foto do idolatrado cantor como se fosse um afago a um namorado antigo, mas sempre recordado. Guardou religiosamente a caixa de plástico no topo da pilha de uns quantos “mortos” sempre vivos e presentes. Bécaud e Sinatra faziam a maioria da sua colecção.

De repente lembrou-se que tinha dentista para as quatro horas e já passava das três. Vestiu-se à pressa e resolveu apanhar um taxi para não perder a sua vez. Se não chegasse a tempo, teria que ficar para o fim e só de lá sairia às tantas.

A corrida foi breve e acabou por chegar com meia hora de avanço. Ainda por cima, as consultas estavam atrasadas…

Pegou numa revista, daquelas muito folheadas dos consultórios e enterrou-se num velho sofá de plástico vermelho da sala de espera. A revista tinha um artigo que lhe chamou a atenção. Tratava-se um tema preferido: Os assassinatos em série.

Uma daquelas histórias e ela entrava quase em transe. Todos os casos passados e que fizeram história tinha-os coleccionado e guardado devidamente encadernados. Um filme que passasse, do género, e lá estava ela na estreia. Por razões que nunca soubera explicar Madalena achava aquelas histórias fascinantes.

O sofá desconchavado deixava o corpo descer pelas suas entranhas e com a sala aquecida, convidava à sonolência. Madalena semicerrou os olhos e tentou avaliar o que tinha sido a sua vida. Principalmente a sua vida amorosa. Mais uma vez estava sozinha. Os seus anteriores companheiros tinham-se evaporado. Tinham pura e simplesmente saído da sua vida, como se fossem nuvens passageiras. Regularmente, todos.

Sabia que a culpa era sua. Não conseguia viver com rotinas. A vida não se compadecia com a repetição exaustiva dos mesmos gestos e práticas. Era necessária a mudança. A vida é sempre feita de mudança.

Madalena lembrou-se de António e da aventura que ambos viveram naquele verão quente em pleno mediterrâneo.

Foi bom até ao ponto em que tudo se desmoronou. António não era o que parecia e não parecia o que era. Talvez por isso tivera o castigo do além. Tudo passou. Foi bom enquanto durou. E como o amor é eterno num segundo assim se partiu a corrente entre os dois. Foi talvez somente um “coup de foudre”? E não passou senão disso?

Mais uma vez tentou varrer António da sua memória. Mas esta era mais forte e também era verdade que fora com ele que passara os melhores momentos. O seu sorriso de belos dentes brancos e brilhantes gravara-se na sua memória como um retrato fixo na moldura, que não passa. Precisava esquecer. Foi um tempo que não volta mais.

Depois, teve o caso com o engenheiro na Amadora. Parecia que tudo ia dar certo. Não deu. Ele era casado. Já não era muito novo e pronto. Passou.

Outros homens correram na sua memória, mas desses já poucas marcas restavam.

Madalena continuava cabeceando no sofá, ora lembrando a sua curta vida, mas cheia de aventuras ora olhando os poucos pacientes, todos entretidos com as velhas revistas e um ar de sofrimento.

O dente começava a doer-lhe novamente. Sabia perfeitamente porquê. Fora provar à Pastelaria da Praça das Flores um “bretzel” para recordar os tempos com António. O bolo fizera-lhe cair o chumbo do dente e o açúcar ocupara-lhe o lugar, preparando a infecção. Sabia perfeitamente que o “bretzel” era para o António, só que ele não estava ali para o saborear, nem para lhe agarrar na mão carinhosamente.

Madalena tinha a certeza, a completa certeza que António não estaria ali, NUNCA MAIS.

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Dezembro de 2003

© DANIEL FALCÃO