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Capítulo 3
(propostas) Inspector Fidalgo |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 3 Proposta de Inspector
Fidalgo “Et maintenant…” Aos poucos a macieza dos seus traços foi-se alterando, enquanto o fumo percorria em espiral os centímetros que o separavam da barreira que o impedia de se erguer aos céus. Madalena não tinha já paciência para muitas das coisas que tinha de aturar. No fundo, decidira que chegara o tempo exacto para o seu “Grito do Ipiranga” e… Curioso, nunca se lembrava do Brasil e agora surgia-lhe o grito de liberdade. Parecia o momento certo para mudar de rumo. A nova etapa amorosa que agora lhe parecia tão próxima, por entre croissants com manteiga – pouca – e um tal pastel de que mal sabia a pronúncia, num café sem futuro, era o que se lhe deparava ali mesmo, no virar da esquina da vida… Aos poucos sentiu-se despertar do lento torpor em que ia mergulhando ao som da música romântica que brotava sem se sentir e inundava o espírito… Não, decididamente já era de mais! Aquele gajo não dava definitivamente, uma para a caixa! Porra! Porra! De um salto, misto de gazela africana e de lince, qual ginasta olímpica, ergueu-se e irrompeu, decidida, pelo quarto semi-obscurecido em que repousava, roncando, um tipo de aspecto pouco recomendável. Porra, Edmundo! Acorda! Que queres? Deixa-me dormir… O crime… Vai-te lixar! Para mim chega! Sempre com a merda do crime às voltas, sonhas e voltas a sonhar com essa porra, acordas de pesadelos tenebrosos… Não, decididamente, para mim, chega! Não estejas assim… Descobri a solução! Tenho a resposta… Repara, o tipo chama-se António Ferreira Neto e a morada é na Amadora. Telefone, não consta e na morada vive uma matrona cabo-verdiana que alugou a casa. É engenheiro e está já em decomposição no interior do próprio carro, há uns jornais cujas datas dão pistas… Há uns projectos que… Alto aí! Onde foste descobrir esse nome? Inventei… Mentiroso! Andas a espiar-me! Já sabes, não é? Sei o quê? Porra! Não quero mais saber dessa merda! Passas a vida a pensar na solução desse tal crime, já nada te parece interessar… Escrever um romance… Pfff! Estás agarrado a essa treta e esse teu amigo Inspector, esse Moka, ainda mais te mete essas merdas na cabeça… Chega, estendes? Querida, tem calma… Estiveste a fumar… Posso senti-lo… Já te disse para parares com isso, pelo menos aqui… Vai à merda, está bem?… Andas a tratar do “teu” António, a dá-lo como putrefacto, mas o cheirete de que falas não é maior que o fedor que tu próprio deitas… És um porco, nem te lavas a pensar nessas merdas… Resolve lá o teu crimesinho e não chateies, está bem ? Querida… Tretas, qual querida qual treta!… Vou-me embora! E se queres saber, vou para muito longe daqui, para onde não tenha de sentir esse teu bafo nojento nem os gritos nocturnos de pesadelos macabros… És um nojo, percebes? Minha “Madeleine”, minha… Deixa-te dessas merdas. Se te digo que acabou, acabou! Fica-te lá com os teus romances policiais, olha, continua armado em parvo a responder a essas coisas do Público e depois queixa-te! És mesmo um nabo completo. A casa é tua, fica com esta estrumeira, eu vou-me! Para onde, não me dizes? Vais fazer o quê? Vais trabalhar em quê? Interessa-te? Olha, encontrei alguém. Vou-me embora de vez… Vou viver com alguém carinhoso, fino, que come “bretzels” com meia de leite… Casado, aposto! Nos romances policiais isso acontece sempre. Depois há uma cena de ciúmes e começam verdadeiramente os problemas que muitas vezes acabam numa sala de audiências por homicídio… Tu sabes isso muito bem. Porra, essa merda da música não acaba, já não tenho paciência e dói-me a cabeça… Sabes, querida, é do tabaco… Sabes… Porra, dá-me vontade de te rebentar com essa tromba! Deixa-me em paz, ouviste? Deixa-me em paz! Chega! Querido? Chegou à caixa do correio de… Porra! Que hei-de fazer? O Edmundo agora quer armar-se em parvo, o porco… Bolas, precisava mesmo de combinar tudo e partir de novo para Capri o mais rapidamente possível e o gajo tem o telemóvel desligado… Deixe a sua mensagem… Querido, quero ir-me embora daqui o mais depressa possível. O Edmundo continua com os seus crimes às voltas e cada vez é pior… Hoje falou no teu nome, sabe-o todo, conta a tua história, não sei onde foi buscar tudo! Está meio doido e é capaz de tentar alguma coisa, sei lá? Vamos embora, pela estrada fora, lembras-te do Kerouac, também andou pela estrada fora, sem limites, de qualquer maneira… Liga-me logo que possas… Liga-me! Faz o favor… Sim? É a menina Madalena? Sim… Polícia! Sim? Conhece um tal engenheiro António Ferreira Neto? Não, quero dizer, sim, … está morto? E um tal Edmundo? Sim… Meu Deus, ele matou-o mesmo!… Não me digam, foi num Rover verde… Como sabe? O Edmundo contou-me! Céus, nunca esperei que ele fosse capaz… Capaz? Capaz de quê? Capaz de matar! Pois, ele confessou esse crime… Céus, foi mesmo capaz, porra! … Mas não encontrámos rasto do tal Rover verde que ele referiu e esse tal engenheiro também não parece existir… Existe! Tenho a certeza! … Há um com esse nome, mas tem mais de setenta anos e está quase cego, tem um Rover verde que praticamente não anda, está na garagem… Tem um corpo dentro, em decomposição… … E não tem vestígios de qualquer crime! Também não tem familiares de qualquer espécie! Céus… O Edmundo confessou que matou um indivíduo e desenhou-o assim… É ele, é o “meu” engenheiro António! Veja esta fotografia do velho engenheiro aos 25 anos, portanto, tirada há cerca de 50… Porra! É o que eu conheço, mas é agora que tem este aspecto, não há 50 anos! Também Edmundo nos contou essa mesma história. Importa-se de nos acompanhar? Espere! Tenho o número de telemóvel do “meu” engenheiro… Vão ver que ele existe, sabem, tem mulher e filhos… Vou com ele numa viagem, humm!… de negócios. É este o número, telefonei-lhe há pouco tempo, deixei mensagem… Não é esse velho! O número que marcou não se encontra atribuído… Não pode ser… Deixei mensagem… O número que marcou… Desculpe, importa-se de nos acompanhar? Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Dezembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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