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Capítulo 3
(propostas) Dic Roland |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 3 Proposta de Dic Roland Não se precipite, prezado leitor, nem se amofine com a incongruência que aparentemente ressalta da leitura dos dois capítulos anteriores. De facto – e à primeira vista – fica-nos a impressão de que Madalena, tendo voltado, sozinha, da viagem que encetara com António Rosa a caminho de Capri (porque foi ela, realmente, que se antecipou no regresso), surge agora em sua casa, algures em plena Lisboa ocidental, fumando um cigarro e ouvindo Bécaud… a meio da semana de Pascoela!… Esta ocorrência é tanto mais estranha quanto é certo que a vimos partir, na rota de Malaparte, duas semanas depois da Páscoa, e soubemos da sua chegada no decurso da terceira semana depois da partida. Estaríamos, portanto, na presença de alguém com o dom da ubiquidade, o que seria, no mínimo, uma brincadeira de mau gosto em qualquer história que se pretende séria e fiel aos cánones da literatura tradicional. É urgente, por isso, pôr os pontos nos ii: O que foi relatado no segundo capítulo aconteceu, na verdade, naquele Domingo de Páscoa e nos dias subsequentes, e está a ser recordado, em amargurada retrospectiva, pela recém-chegada Madalena. É óbvio que o drama do pobre engenheiro Ferreira Neto foi largamente explorado pela comunicação social, e Madalena (que não se limitava a ler, nos jornais diários, aquilo que dissesse respeito à sua profissão), não deixou de acompanhar, com algum interesse, as peripécias dia a dia reveladas. E essa curiosidade atingiu o auge ao tomar conhecimento de dois pormenores que, de certo modo, a chocaram particularmente: o primeiro, foi a descoberta de uma caixa de CD’s evocativa de Gilbert Bécaud, também ele da sua particular preferência; o segundo, foi a incómoda coincidência do nome de uma tal Madalena, suposta amiga e companheira de Ferreira Neto. Tudo, porém, tem o seu tempo, e o drama caiu no esquecimento... Mas porquê – perguntar-se-á – esta doentia evocação da tragédia, quase um mês e meio mais tarde? Prezado leitor: acompanhe-me no raciocínio e verá que as coisas, por mais estranhas que pareçam, têm a sua razão de ser. Madalena interrompeu uma viagem que iniciara com tanto entusiasmo, em companhia de alguém que a cativou por completo e por quem – ela própria o reconhece – acabou por se apaixonar! Algo aconteceu (de pouco agradável, decerto), que alterou por completo todos os planos, impossibilitando o prosseguimento da viagem até à ilha de Capri e obrigando o casal a uma imprevista e dolorosa separação. O que, na realidade, se passou, saber-se-á mais adiante. Por agora, o que sabemos é que Madalena voltou a casa, evitou todos os contactos com amigos e vizinhos, e fechou-se na sala a pensar em António... Instintivamente, quase como um autónomo, pôs um disco no leitor de CD’s, acendeu um cigarro e ajeitou-se no sofá. Mal ecoaram os primeiros acordes, Madalena estremeceu: Gilbert Bécaud cantava o seu poema preferido: “Et maintenant…” Não era preciso mais nada para que a jovem modista recuasse no tempo e se transportasse àquele dia em que, também ali sentada, mas com o espírito muito mais desanuviado, ouvira o mesmo disco e ouvira, na televisão, as primeiras notícias acerca do suicídio do engenheiro. Bécaud, entretanto, continuava a fazer-se ouvir na sua voz inconfundível: ”Toutes
ces nuits, pourquoi, pour qui, Et ce matin que revient pour rien, Ce
coeur qui bat, pour qui, pour quoi, Qui bat trop fort, trop fort… Esta angústia que decorre da solidão que se não deseja, este pulsar ansioso dum coração destroçado, correspondiam perfeitamente ao actual estado de espírito de Madalena. Duas lágrimas rebeldes lhe humedeceram os olhos... Foi então que à sua mente aflorou a lembrança de um poema de José Régio, em “As Encruzilhadas de Deus”, poema que ela adorava e quase sabia de cor. Levantou-se, excitada, e foi procurá-lo à estante. Queria relê-lo porque, subitamente, foi assaltada por um desejo inelutável: escrever alguma coisa de semelhante, para enviar àquele cuja presença tanto desejaria naquele momento. Semelhante, claro (e Madalena tinha perfeita consciência disso), apenas na ideia que lhe está subjacente, e não na forma e com a inspiração com que Régio escrevia. Tratava-se, porém, de uma humilde mensagem particular, só para o estrito conhecimento de ambos... Mas, depois de muito procurar, Madalena lembrou-se de que o deixara no seu “atelier”, antes de partir para férias. Teimosa como era, não desistiu. Voltou para o sofá, com um bloco de papel e uma esferográfica. E começou a escrever: Em cima da minha mesa, Minha mesa de costura, Mesa da minha tristeza Porque sou vulgar artista De uma Arte, ingrata e dura, Que nem sempre se domina, Que a Costura (Eu sou modista…) Que a Costura Ou é divina Ou demónio... Em cima da minha mesa Tenho o teu retrato, António! ............................................. ............................................. ............................................. E se não fora esse “altar” E a magia Ardente, do teu olhar (Eu bem sabia Que ele me queima o peito Com fogo vivo, em fagulhas) Meu António, Amor perfeito! Já me teria perdido Ou já teria engolido Algum pacote de agulhas!… Gilgert Bécaud terminava, entretanto, a sua canção: “Pas
une fleur et pas de pleurs Au
moment de l’adieu. Je n’ai vraiment plus rien à faire… Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Dezembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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