Regulamento

Capítulo 3

Capítulo 3 (propostas)

A. Raposo

Detective Oculams

Dic Roland

Inspector Fidalgo

Inspector Moka

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 3

Proposta de Inspector Moka

Desde o início da viagem algo de diferente sugeria a António Rosa que se não tratava de uma simples “excursão de prazer”. Ao levar Madalena a casa, na véspera da partida, esta tinha-lhe pedido para por no carro duas pesadas caixas de madeira, limitando de forma inesperada o espaço da mala. No dia da partida, juntou-lhes uma desproporcionada mala de viagem e dois gordos envelopes azuis de papel entretelado. Madalena esclareceu tratarem-se de artigos a entregar em Barcelona, contra o montante a cobrar – algo que nunca antes referira. Finalmente, um outro envelope, esse de plástico, com documentos, foi posto no porta luvas.

Saíram no domingo, por Madalena não querer meter-se a caminho em dia 13. Tinham combinado passar aquela primeira noite numa vivenda vazia mas sempre preparada que pertencia a um amigo de António e que, no limiar do Alentejo, combinava um aspecto exterior irrepreensível com o recato e a comodidade exigíveis a uma “garçoniére” requintada, valorizada pela relativa proximidade das praias algarvias e suficientemente acoitada, pela distância, das suspeitas de uma consorte ciumenta.

O programa estabelecido era simples: procurariam chegar a Capri em jornadas que não exigissem mais de 8 horas diárias de condução, sempre apoiadas em sítios que, por qualquer forma, “aculturassem” o romance sem desacamar o seu aspecto óbvio. No segundo dia ficariam em Manzanares, procurando lugar no Parador local, no terceiro cerca de Castellón, no quarto dia em Sète e no quinto já em Génova, prontos a descer a bota até Capri, que – forçando a nota – atingiriam no sexto, para que, no sétimo dia, esquecessem o descanso bíblico e visitassem os monumentos principais da ilha, com particular atenção para a “Casa como Eu” que constituía a meta oficial da peregrinação.

Se outra surpresa surgiu quando, em plena E05, passada Sevilha, Madalena demonstrou não ser uma condutora nem tímida nem inexperiente, o pior estava reservado a António Rosa na noite de 16 para 17, depois da chegada a Castelló. Levantado o “capital” ali postado, tinham-se afastado mais alguns quilómetros ao longo da costa e escolhido, para fim da etape, um pequeno e confortável hotel de Oropesa del Mar, voltado a um Mediterrâneo a perder de vista. Depois de transportar para o quarto o malão terceiromundista de Madalena e a malinha de executivo em férias em que trazia o essencial da pernoita, pois que geralmente dormia nu, António colocou o “pacotinho de euros” recebido em Castellón no envelope de plástico e – como tencionavam sair -levou este conjunto para a aparente segurança do cofre da recepção. Já debaixo do chuveiro, pareceu-lhe que Madalena estava a usar um telemóvel, mas nada disse. Saíram a pé, para “cear”, e como alvitrado por Madalena, tinham-se seguidamente excedido numa intimidade dançarina, razoavelmente bebida e aconchegada numa “boite” próxima. Deitaram-se tarde, pedindo ao porteiro que os acordassem cedo. Quiçá efeitos da viagem, do banho, do jantar e da bebida, António sentia-se muito pesado e caiu logo num sono profundo, ao lado duma Madalena que se declarava também ensonada e pronta para mais nada que não fosse dormir.

Quando acordou, com uma dor de cabeça terrível, o sol tinha rompido entre núvens e inundava o quarto. A boca sabia-lhe a cortiça., concretizando uma cruel ressaca, daquelas que podem resultar da muita quantidade, ou da má qualidade ou de ambas – o que talvez fosse o caso. Estranhando a demasiada claridade e ainda meio ensonado, estendeu o braço para o local onde deveria estar a sua companheira de viagem e sabe-se lá do que mais, a seu devido tempo. Nada… estremunhado acordou e olhou para o despertador: eram 3 horas e meia da tarde, hora local. Não, não o tinham acordado! E Madalena não estava ali! Nem as malas, nem a roupa, nem documentos, nem dinheiro, nada! A surpresa foi mais radical que qualquer aspirina. Pelo telefone pediu um robe, que lhe levaram, de turco, demasiadamente reduzido, dando-lhe um aspecto tristíssimo. Pediu a presença do gerente. Explicou-lhe a situação, solicitou-lhe explicações.

Pois, a Senhora tinha saído de manhã muito cedo, antes das seis horas, dizendo que ia a Castelló a casa de uns amigos. Que o senhor estava doente e que não o incomodassem. Ia inclusive aviar-lhe um medicamento urgente, para voltar antes das dez. Almoçariam no hotel e só sairiam à tarde, o que, pela pequena ocupação, lhe disseram ser possível. Colocou a mala grande no carro e saiu com ar preocupado. Face a esta situação e ao dístico “não incomode” colocado na porta, tinham-se limitado a cumprir. Certamente que se tratava de um mal entendido – sugeriu o gerente com ar cúmplice – e que a senhora voltaria em breve. Preparariam uma refeição ligeira, que trariam ao quarto, e o senhor poderia esperar vendo televisão. António, envolvido no robe, sem roupa, sem documentos, sem carro, sentado no sofá, não pode deixar de se recordar do primeiro filme dos Lumiére, que vira em miúdo e que pela sua simplicidade tanto o impressionara: “l’arrosoir arrosé”.

Minutos depois, reavaliada a situação com o conforto de um “consomé” quente, a reacção de António já não seria tão tranquila. Madalena ainda não chegara, pelo que havia mesmo que actuar. Em primeiro lugar, um telefonema para o escritório do colega de Castellón, onde na véspera levantara o dinheiro. Tinha saído da cidade, mas deram-lhe o número do telemóvel. Referiu-lhe em palavras breves o que se passava e pediu-lhe que viesse ao seu encontro, em Oropesa, onde permanecia indocumentado, sem carro, sem cheta, com horror a todo o tipo de publicidade, e, além disso, presumivelmente intoxicado com qualquer mistela adicionada à bebida. E sem Madalena, de quem não tinha notícias ou mensagens e a quem poderia ter sucedido sabe-se lá o quê.

Participação discreta à polícia, que veio logo a seguir. Tarde já para contactar com o consulado português mais próximo, mas suficientemente cedo para difundir os dados da viatura. Pairava no ar a dúvida de um desajuste entre namorados, de um arrufo de que António escondesse pormenores e até, sabe-se lá, de algo mais que isso. O agravamento de um mal estar, com vómitos, boca seca, perda de equilíbrio e recrudescidas dores de cabeça, justificou uma visita ao hospital local. Face aos sintomas, aos primeiros resultados analíticos e á evidente ansiedade, o médico de serviço aconselhou o internamento sob vigilância médica, por uma noite. O colega insistiu e iniciou as diligências para aplainar a situação. Procurou saber que valores ou títulos se encontravam também desaparecidos. Sem tocar no envelope, que continuava no cofre, elaborou, com um António já meio sedado, uma lista das possíveis comunicações a fazer – acolhendo os pedidos para que se não desse eco público àquela situação, aquém e além fronteiras, dado o melindre que a sua presença ali revestia. Que sossegasse pois havia experiência disso, já que nada espanta numa região que viva do turismo.

Só no dia seguinte lhe permitiram sair do hospital e regressar ao hotel de Oropesa del Mar. Conferenciando com o colega e um associado deste, foi-se montando o conjunto de indagações necessárias para restabelecer um mínimo de apresentação e as suficientes garantias, nomeadamente de não terem existido mais levantamentos. Não lhe era simples telefonar para Portugal e, quando o fez, foi através de pessoa de muita confiança, que jamais deu com a língua nos dentes e que motivou os devidos interesses pelo assunto, nos planos policial, diplomático e bancário. Pôs-se à disposição das autoridades locais, que procuravam encontrar uma Madalena também desaparecida e o automóvel com que desaparecera.

O envelope de plástico amarelo escapara “à voragem” por estar no cofre do hotel e o seu conteúdo foi inventariado. Para além do dinheiro, registou-se um recorte detalhado de um mapa fotocopiado de uma carta militar portuguesa ou de um mapa com escala de idêntica generosidade, a minuta duma factura de “serviços diversos” impressa em computador, mas sem data e sem identificação de qualquer das partes e uma folha de instruções (em línguas sortidas) que descrevia um pedómetro de marca “Tronic”. Agrafado ao mapa, um cartão de visita, vincado a meio, de António Ferreira Neto, Engenheiro Mecânico (IST), mas sem qualquer outra indicação, e no verso do qual, escrito a esferográfica, se reconhecia o número: 977081006.

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Dezembro de 2003

© DANIEL FALCÃO