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Capítulo 3
(propostas) Detective Oculams |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 3 Proposta de Detective
Oculams António Jorge nem queria acreditar quando atendeu o telefone e ouviu a voz firme e grave do inspector Barreto. Pouco passava do meio-dia, o cabrito ainda só ganhara cor no forno e já o cheiro do assado despertava o apetite de toda a família. Apenas o mais novo da prole parecia pouco entusiasmado com o repasto que as três mulheres da casa preparavam com afã na cozinha, entretido que estava a furar o folar com os seus pequenitos mas laboriosos dedos num movimento quase ininterrupto que fazia o interface entre o folar, o arroz doce, a mousse de chocolate e as amêndoas, a caminho da sua gulosa e lambuzada boca. Noutro canto da sala, o irmão mais velho esforçava-se por convencer sem aparente sucesso o avô Cândido das bondades e virtudes do campeonato europeu de futebol que Portugal organizaria daí a ano, tendo por palco dez novos e modernos estádios construídos à custa de um inusitado aumento do défice da despesa pública e de outras consequências ainda imprevisíveis. Merda! Que porra de profissão esta, onde um homem não pode ter vida própria num só dia que seja!, berrou António Jorge a plenos pulmões ao mesmo tempo que poisava o telefone com um estrondo de raiva. Avô e neto pararam de imediato com as discussões filosóficas em torno do fenómeno futebolês lusitano e seus efeitos nefastos no futuro dos descendentes do herói Viriato; Joãozinho, o filho “caçula”, levantou-se de um salto e correu assustado para junto das pernas do pai, mas não sem antes abastecer os bolsos de algumas amêndoas com recheio de laranja, baunilha e chocolate; Mãe, filha e nora, abandonaram de súbito pratos, panelas, tachos e demais utensílios que ajudam a fazer da culinária uma arte de encher o olho e a barriga, preocupadas com a atitude descontrolada do chefe da família; e todos, a uma só voz, perguntaram: Mas o que foi? O que se passa? Um crime, “apenas” mais um crime, na imprevisível e agitada vida de um empenhado e destemido agente da Policia Judiciária, mas também honrado e dedicado chefe de família, que o inspector Barreto sorteou de entre cerca de vinte homens às suas ordens para trabalhar naquele dia festivo há muito agendado para partilhar em paz com sua gente. Dentro de um carro estacionado numa das mais belas praças da cidade de Lisboa, foi encontrado um homem já cadáver, derrubado por três tiros no abdómen, caído para a frente como se tivesse adormecido debruçado sobre o volante cansado e vencido pela noite chuvosa da véspera que fez jus ao ditado que faz de Abril um mês de mil e muitas águas. António Jorge não teve tempo para mais explicações. Vestiu à pressa o seu blusão de cabedal envelhecido e gasto de mais de cinco anos ao serviço da lei e da justiça, ergueu até ao nível dos seus olhos o lambuzado Joãozinho e beijocou as poucas partes limpas do seu rosto com ternura imensa, abraçou com a força de quem ama sem reservas nem limites o seu velho e cansado pai, repartiu festas e beijos pelas “cozinheiras” da casa, levou o primogénito pela mão até à porta como se quisesse passar-lhe temporariamente o testemunho de chefe da família, voltou atrás para pegar a arma que havia esquecido e que esconde com toda a precaução num velho cofre de segredo bem guardado, tornou a beijar a sua companheira de vinte cinco anos de lutas e de sonhos “a dois”, e lá foi ele, só, muito só, ao encontro de mais um crime. Quando António Jorge chegou perto do Laguna cinzento onde jazia a vítima de mais um monstruoso homicídio cometido na grande cidade outrora segura e calma, não caía dos céus nem uma só gota de chuva e o sol instalara-se radioso na praça, banhando de luz as árvores recém vestidas de tenras folhas e as ramagens verdes por onde espreitavam dezenas de botões a florir. A madrugada já chorara tudo e o sol viera manhã cedo prestar vassalagem àquele dia de ressurreição da paz entre Deus e os homens. Contrastando com a beleza do exterior, dento do carro prevalecia a morte, o mal, a desordem. Por debaixo do assento do condutor, três cápsulas de balas assassinas emergiam entre lenços de papel, algumas pontas de cigarro e restos de pipocas. No banco traseiro, um livro de Malaparte e um CD de Gilbert Bécaud misturavam-se com duas latas de cerveja vazias. No porta luvas, vários mapas de estradas e de cidades da Europa faziam companhia a um postal ilustrado de Capri impregnado de perfume de mulher. Na mala do carro, havia bagagem para muitos dias de viagem. Debruçado sobre o volante, um homem com perto de quarenta anos, casado, jazia imóvel e em paz há pelo menos doze horas. Chamava-se António, António Pires. Já eram quase quatro horas da tarde quando se cumpriram todas as formalidades legais e o corpo foi finalmente removido. O tempo passara tão depressa que António Jorge nem dera pela dor da forme a roer-lhe o estômago. Bem perto do local do crime existia uma confeitaria. Pão de Canela, assim se chamava. Sem hesitação, entrou e pediu: um café e uma coisa comestível sólida e doce. A empregada brasileira sorriu e sugeriu uma especialidade da pastelaria alemã que há muito fazia furor por aquelas paragens, de seu nome “bretzel”, que ele experimentou com deleite e prazer. Ao mesmo tempo que saboreava aquela delícia doce e estaladiça, o detective olhou a rua através da vidraça da montra coberta de prateleiras forradas com os mais diversos bolos, ovos de chocolate, amêndoas coloridas e folares de Páscoa. Lá fora a vida continuava a pulsar, no sono do bebé dormindo e mamando no colo da mãe sentada ao sol no banco da praça, grávida de felicidade; no sorriso traquinas do rapaz correndo atrás de uma bola redonda, tão redonda e maltratada como o mundo; ou ainda na inebriante beleza da mulher que se encaminhava para a confeitaria, provocante, desafiadora, atrevida… António Jorge sentiu um “clique” na cabeça, no peito, na alma, quando viu aquela mulher loira, olhos esverdeados, jovem de trinta e poucos anos, caminhar em sua direcção como se o conhecesse ou tivesse encontro marcado com ele àquela hora e naquele sítio. Ela parou junto dele, sorriu, sentou-se, e antes que ele tivesse tempo para qualquer reacção, pediu à empregada: um chá verde e um “croissant”… com manteiga, com pouca manteiga! Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Dezembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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