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VI Convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade Informações Complementares aos Concorrentes Fase Preparatória do Futuro Grande Romance 0. – CARTA DE
MARY LOU À TPL | A. Raposo 1. – PRIMEIRA
CARTA DE NELINHA | Zé 2. – CARTA DE
KÁTINHA | Arnes 3. – TEMPICOS
PODE SER ALDRABÃO, MAS DE FORMA NENHUMA SERÁ MENTIROSO! | A.
Raposo 4. – VOX
POPULI | Onaírda 5. – HAJA DECORO
E FALE-SE VERDADE. HÁ QUE ENTERRAR OS MORTOS E CUIDAR DOS VIVOS | Nove |
CAPÍTULO 4. VOX POPULI Onaírda
A Primavera
apareceu tímida e envergonhada naquela altura normal do ano. Um mês depois o
mau tempo ainda se tinha agravado. Tempo triste e cinzento. Chuvoso e frio.
Mary Lou estava hospedada numa pensão ali para os
lados do Príncipe Real. Regressara dos
Estados Unidos na véspera e a sua primeira missão era contactar o detective Tempicos. Não para
relembrar as tristes aventuras com que este magano protagonizou com a sua
falecida mana Nelinha, mas para tentar saber o contacto de alguém que tinha
sido o grande amor da vida dela. Alguém que a
estimou e lhe deu conforto espiritual (e copinhos de jeropiga), porque do
resto, a amizade suplantava os desejos concupiscentes e que eram o apanágio
das relações anteriores da Nelinha, sua estimada irmã, com outros padrinhos
voluptuosos. Passou por São
Pedro de Alcântara, desceu a Rua da Misericórdia e parou no Largo Camões, na
esquina em frente à igreja. Foi nesse local que tinha combinado encontrar-se
com Tempicos. Ligara para um número de telefone que
estava na agenda de sua irmã e localizou o detective.
Combinara encontro para essa tarde. Ela iria vestida com uma saia/casaco
amarelo e Tempicos levaria um cravo vermelho na
lapela do seu casaco. Quando chegou
ao local viu que Tempicos tinha metido água: é que
havia duas igrejas e havia centenas de pessoas todas com cravos vermelhos nas
lapelas dos casacos. Afinal era dia 25 de Abril e aquela flor era uma
constante aos olhos. Parou, inquieta, no meio da multidão efervescente, que
ia comemorar um acontecimento e protestava nem se sabia o quê e o porquê. Sem ela se
aperceber aproximou-se um cavalheiro, com o tal cravo na lapela e com um
cheiro a brilhantina entranhante. Mas a sua cabeça
parecia de bom aspecto. Vestia-se a rigor com as
políticas do proletariado. Calças de ganga azul-escuro e blazer
vermelho de fecho éclair aberto. Ele viu que
tinha metido água, mas calculou pela certa, que a dama vestida de amarelo era
Mary Lou. Experiencia de detective.
Também mais ninguém vestia de amarelo naquela tarde revolucionária. – Sou o detective Tempicos, um humilde
criado para a servir nos seus ardentes desejos que presumo sejam de vária
índole. E eu estou em forma para o que der e vier. – Sou a Mary Lou. Good
afternoon. Desculpe o meu mau português. Sou uma cidadã norte americana dos
Estados Unidos. Podemos conversar em algum lado longe desta confusão de
frases gritantes trocadas com esgares de bocas de desagrado, mascando “chewing gun”? – Pois, pois!
Vamos até ao Cais do Sodré, um local sossegado e onde só param boas famílias.
Entretive-me lá durante muito tempo. Conheço muito bem o local. Dei lá uma
tareia num marinheiro que andava a perseguir a sua mana. No final o 112
levou-me para o hospital. – Very well. It´s all right. I´m glad to know you. Let´s Go! Mary Lou tinha o caminho aberto para localizar o simpático e
romântico Onaírda. Ao fim e ao
cabo Tempicos era um papalvo. Tinha sido
mais uma vez enganado por uma mulher. – Podes crer, Onaírda, que o que te contei é a mais pura verdade. Depois do
contacto com o investigador de Sintra, proporcionado (ingénuamente)
por Tempicos, seu rival nos procedimentos éticos e
morais, mas amigo do peito, Mary Lou encontrou-se
com Onaírda num almoço, pago a meias, num
restaurante com refeições a 6.00 euros. O tempo é de crise. Mary Lou, desta forma, terminou o seu longo relato com que
mimoseou a paciência daquele, que honestamente e embalado por doces
recordações, ficou boquiaberto com a revelação que,
surpreendentemente, aquela mulher lhe fez voltar a um passado distante, mas
não tão longe, que o impedisse de lhe lembrar tempos felizes que passou. Onaírda continuava a pensar que águas passadas não movem
moinhos, assim como as descidas que aquele malvado Ferrari, corado de
vermelhidão celulósica na carroçaria e com jantes de liga leve cheias de
mossas, que faziam o bólide ondular no asfalto e, desta maneira, impediam o
condutor de adormecer, (tácticas, é o que é!) fazia
pelas estradas íngremes que vinham da Serra do Caramulo para Campo de
Besteiros, nunca mais se realizariam no sentido contrário nos tempos actuais! Foi aquele malvado bólide que fez com que Tempicos e ele próprio fossem relegados para segundo
plano, a partir da altura em que as suas qualidades de Tempicos
de “latin lover”
começaram a descair, tanto no plano moral como de reprodutor. Mas as suas
“patranhas de trazer por casa” continuavam. Já Onaírda
foi ultrapassado pela inveja e do mal que dele diziam os seus rivais. – Pois é,
amigo Onaírda, disse Mary Lou.
Nasci em Grândola, sou gémea da Nelinha. Fomos separadas em criança e eu fui
para os Estados Unidos por adopção a um casal que
me educou. Depois estudei e fiz a minha carreira na Broadway. Como actriz, como encenadora, ganhei muito dinheiro mas
entretanto nunca voltei a Portugal. Sou, dizem, cara chapada da minha mana
Nelinha. A nossa mãe dizem, era cozinheira num restaurante no Canal Caveira e
que quando ia para casa à noite só cheirava a cozido à portuguesa que era
servido em doses industriais aos clientes a caminho dos Algarves. Mary Lou continuava a sua narrativa: – A Nelinha
contou-me que se tinha envolvido com um homem perigoso, que era um detective espertalhão (era Tempicos,
não haja dúvidas) para as maldades e vinha convencer-me a que eu não voltasse
a Portugal e que ela tencionava ficar ao pé de mim, porque nós havíamos de
fazer uma boa dupla no teatro. Concordei. Mas um dia a minha irmã recebeu uma
carta de Tempicos, que dizia que lhe tinha saído
uma fortuna nas rifas da lotaria (que se vendiam no Mercado de Arroios) e
veio-se embora. Mas esqueceu-se de uma agenda e lá descobri o número do
telefone do Tempicos. Ficaram por
ali naquele dia (na narrativa, claro) e combinaram almoçar no dia seguinte
numa de rodízio de peixe ali para os lados do Montijo. O que Mary Lou contou nesse dia ao Onaírda
foi deveras espantoso, mas como este arrazoado está comprido, o resto fica
para a próxima. Só que hoje há que esclarecer uma coisa. Tempicos
disse que Onaírda punha-se de gatas na sua adega a
ver a Nelinha. Nada mais falso e a verdade é esta. Na adega de Onaírda apareceram uns ratinhos anões de cor branca e a
Nelinha achava muita graça aos roedores. Então ela punha-se de gatas a
espreitar para debaixo de uma mesa para vê-los mais de perto. Enquanto a
Nelinha estava naquele posição, Onaírda olhava para
o lado, mas de olho aberto e assobiava uma melodia muito em voga, assinada
pelo Quim Barreiros, cuja letra não vou agora aqui apresentar dado que temos
senhoras no nosso auditório e aqui nesta história o mal
educado só pode ser o Tempicos! Voz do Povo, voz de Deus. Voz de Tempicos, voz do Diabo! Telefona-me agora o Tempicos a saber se eu sei o dia em que Mary Lou regressou a Portugal. De amnésia é que ele agora
padece! De mim não sabes mais nada! Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 18 de Janeiro de 2026 MARY LOU, MARY LOU
– Onde estavas tu?, Edições Fora da Lei, Ano de 2010 |
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© DANIEL FALCÃO |
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