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NOITE DE NATAL | Paulo PRAZERES
DE NATAL | O Gráfico A
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VÉSPERA DE NATAL | Arjacasa SONHOS
DE NATAL | Madame Eclética |
AMEM-SE UNS AOS OUTROS Inspetor Moscardo O espírito da
paz entrara no íntimo de toda a gente. Era a véspera de Natal. Filipe relera
um versículo bíblico: “Amem-se uns aos outros. Como eu os amei”. Tão longe, se
encontravam as coisas do mundo, do conteúdo, desse mandamento. Pensando
nisso, uma destruidora amargura espalhou-se dentro de si. As adversidades
ocorridas pela vida, saltaram do fosso das masmorras do alheamento, e
cercaram-no ali, dentro de sua casa, a casa que ele recuperara com
dificuldades, e dentro da qual esperava os seus familiares para a consoada. Solteiro, no
ano que passara, subjugara-o um agreste isolamento, uma sensação de incómodo
constante, de imparidade sombria. Uma amiga
dissera-lhe: – És a
perfeita natureza morta, da imperfeita solidão viva. Respondeu-lhe
algo, que não desse a entender, precisamente, que não tinha entendido. Anos mais
tarde, soube que afinal, a amiga queria mesmo perceber, é que ele, não tinha
percebido. Neste Natal
convidara para a consoada, os irmãos e os sobrinhos. Armara a
árvore com os presentes à volta, e uma serpentina de pequenas lâmpadas, a
acender e a apagar, ao redor da copa. Aguardava que
chegassem, e tencionava depois da ceia, irem à missa do galo. O seu
telemóvel tocou, uma videochamada, era o seu irmão mais novo. Perguntou-lhe
como se encontrava de saúde, e se, se andava a sair bem, na empresa onde trabalhava
em informática. Do melhor respondeu-lhe. Na chamada IA, estou entre os
primeiros. E disse-lhe o
irmão que a esposa, os meninos e ele próprio, encontravam-se também bem –
apontou para eles a câmara do telemóvel, – mas lamentavelmente, não poderiam passar
a consoada com ele, porque os sogros fizeram finca pé, e quase os “obrigaram”
a passar a noite com eles. Notando a sua
deceção, disse-lhe o irmão que ficariam para a passagem de ano. Que contasse
com eles para o ano novo. Não conseguira
disfarçar a seu desapontamento. Ligou a
televisão. Iria dar umas boas gargalhadas a ver o filme “Sozinho em Casa”.
Distraído como sempre, não reparara que o filme desta vez, não fazia parte da
programação natalícia. Entretanto
ligou o seu outro irmão, e também, por um motivo de última hora, não poderia
também estar presente. Uma angústia
sem explicação, se alastrou pelo âmago da sua alma. E decidiu-se a beber
qualquer coisa. Passaria a
noite sozinho. Pegou na
bíblia, folheou-a e abriu-a ao acaso. Leu: – “Perdoai-nos
as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam”. Lembrou-se
então do senhor regedor, com quem tivera alguns litígios. Tinha ele
praticamente toda família emigrada. Em França uns, Suíça e Luxemburgo outros,
e só vinham à mãe Pátria, de vacances
no verão. Provavelmente
estaria nas mesmas circunstâncias. (O regedor era
pouco religioso. Não frequentavam a missa.) Reparou na
fantasia que comprara de Pai Natal, arrumada sobre o sofá e que tencionara
vestir, para a festa. E pensou que
mesmo sem celebração, iria vesti-la para surpreender o regedor, com uma
garrafa de champanhe, e remirem-se mutuamente das contendas antigas. Aproximava-se
a meia-noite. Vestiu a
fantasia de Pai Natal. As ruas da cidade estavam iluminadas. Saiu de casa. Ao aproximar-se
da casa do regedor, viu por uma janela que havia luz na sala. Bem, ainda não
se deitara. Bateu à porta. O regedor surgiu à janela, para ver quem o
visitava. – É pá, quem
és tu, vestido dessa maneira, que apareces a esta hora, sem assistires à
missa do galo, e vens interromper a construção do presépio, que é a minha
companhia na consoada solitária? – Sou o
Filipe. Trabalho no Centro Geral de Computação. – A sério? – A sério.
Também me calhou, desta vez, essa velhaca solidão. Vamos beber à nossa saúde?
– perguntou Filipe. – Se estás com
essa disposição, vamos a isso. O regedor
abriu a porta e saudou-o: – Bem-vindo,
entra. Lembro-me que andámos juntos na escola. Fomos dos mais comtemplados,
com vastas reguadas, por parte do professor da primária. – É verdade
eramos burros, a aprender a tabuada. Lembras-te quando já adultos, da vez em
que me arrancaste um marco, de uma propriedade, e o atiraste para dentro de
um poço? – Não fui eu
Filipe. Como te disse na altura, contratara um novo tratorista, pouco
conhecedor das extremas da fazenda, com a manobra de voltar para um novo
sulco, arrancou o marco com a charrua, e com medo de ser despedido,
escondeu-o no poço. – É verdade,
coisas do diabo. – Bebamos
pois. Enterremos o mau passado. Brindemos ao bom futuro. Ergueram as
duas taças. Tchim… Tchim… – O que me mói
mesmo, – disse o regedor – foi a minha mulher, a minha deusa, ter-me deixado.
Ainda sinto a falta dela. – E, porque
não arranjaste outra? – Eu tentei meu
amigo. Mas algumas diziam que não queriam artigo de refugo. E uma disse, que
sofrera um ghosting, e que por
causa disso, estava com a sua autoestima lesada, e que não voltaria a ter uma
nova relação, sem ficar completamente esclarecida, sobre o que a levara a
começar, e o que a levara a terminar. – Será que
entendeste, o que era essa coisa do ghosting?
– perguntou Filipe – São termos modernos da internet, dos sites de encontros,
dates. – Deitam-se? – Às tantas.
Mas não podes asnear. Tens de ir em frente, encerrares-te numa “torre de
marfim” não vai resolver. – Sabes,
amigo, que ela me fugiu, pela altura em que a tua namorada se suicidou? Um
revés que nos tocou aos dois, embora diferentes no particular, que coube a
cada um. Filipe
lembrou-se do amor que tivera pela namorada, amiga de infância, vizinha, o
seu suicídio lhe provocara uma dor, e um receio de voltar a amar. – Não penses
mais nisso, disse o regedor, ela era simpática. Nalguns casos se poderia
considerar até demasiado. – Que dizeis
regedor, brincais comigo, com uma coisa tão séria e dolorosa? – Perguntou
Filipe, a usar involuntariamente o verbo no imperativo. O regedor não
respondeu, mas não foi o silêncio, foi o sorriso de escárnio, que fez Filipe
num gesto repentino, partir-lhe com força a garrafa na cabeça. O corpo caiu,
o sangue começou a correr sobre a alcatifa. Viu a
pulsação. Sem pulso. Estava morto. Não era sua
intenção, obter esse resultado. O pânico tomou
conta de si. Que fazer? Encenar talvez
um acidente, um assalto que correra mal, e desaparecer o mais depressa
possível, sem deixar rasto. Olhou para o
relógio a missa do galo terminara. Atirou os
objetos, que estavam em cima dos móveis pelo chão. Abriu e despejou algumas
gavetas. Deu sumiço na garrafa. Despiu a
fantasia. Respirou
fundo. Limpava o suor, preparava-se para sair, quando bateram à porta. Várias vozes
diziam do lado de fora: – Abra, a luz
está acesa, queremos desejar-lhe boas festas. Fontes: Blogue Local do Crime, 20 de Abril de 2024 Secção O Desafio dos Enigmas [183-184], 20 de Setembro e 1 de
Outubro de 2024 |
© DANIEL FALCÃO |
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