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SONHO DE UMA NOITE DE NATAL Rui Mendes (Inspirado pela novela de Ian McEwan “Numa Casca de Noz”) Devem ser umas
cinco horas da manhã. Acordei assustado, talvez mesmo em estado de pânico.
Não é normal eu recordar-me dos sonhos, às vezes fica só a recordação de
algumas imagens difusas, mas esta noite tive um sonho tão extraordinário e
perturbador, que consigo neste momento recordar-me de tudo sem faltar nada.
De tal maneira que resolvi não tentar dormir mais, e sentar-me aqui a
escrever exatamente o que acabei de sonhar para não correr o risco de, mais
tarde, vir a escapar-me algum pormenor. Felizmente que
hoje é dia de Natal e não tenho aulas, portanto posso estar aqui sem receio
de que alguém venha incomodar-me. Mas, antes de tudo, acho que devo fazer uma
introdução que ajude quem me leia a entender o significado de tudo o que vou
contar. O meu nome é
Amílcar, tenho doze anos e vivo desde sempre com os meus pais, num ambiente
familiar que anda a deixar-me cada vez mais preocupado, como se houvesse
coisas que não percebo muito bem e que não parecem completamente normais. De
há uns tempos para cá o casal passa a vida a discutir e o meu pai anda cada
vez mais agressivo comigo. Durante esta
mesma noite da Consoada, quando toda a gente devia estar feliz e simpática,
ele não perdia uma oportunidade para me chatear, quase sempre sem razão, e eu
podia ver o desagrado estampado na cara da minha mãe. A certa altura
resolvi usar um truque e pedir licença para ir à casa de banho. Aí, acendi a
luz, fechei a porta, mas não entrei, e sem fazer barulho fiquei ali no
corredor a escutar. Eles, num tom muito baixo murmuraram palavras que a
música não deixava perceber bem, mas a certa altura ouvi a minha mãe dizer:
“Aníbal, se continuas a tratá-lo assim, ele vai acabar por desconfiar de
tudo.” Ele respondeu: “Não lhe devíamos ter dado o nome de Amílcar. A ideia
foi tua”. E ela: “Tinha esse direito, ele não é teu filho!” Quando voltei
à sala o ambiente comigo tinha-se alterado bastante, e até quiseram que eu
bebesse vinho, que foi coisa que, até aí, nunca me tinham deixado. Bebi só um
pequeno copo, pois não queria perder o entendimento e deixar de observar o
que se passasse. A noite seguiu
sem nada de anormal, mas o meu espírito continuava muito perturbado. Quase
não liguei aos presentes e fui deitar-me. O sono custou a chegar, mas quando
veio, adormeci como uma pedra. É agora o
momento mais importante da minha noite de Natal. O inacreditável sonho que eu
tive e que nunca me tinha passado pela cabeça que fosse possível. O mais
incrível é que, enquanto o “vivia”, tudo no sonho me parecia absolutamente
normal e nada era estranho. Apesar de que não via rigorosamente nada, a
escuridão era completa e assim continuou até final. Mas eu estava bem, e
ouvia. Ouvia com absoluta clareza duas vozes que não tive dificuldade em
identificar como sendo as dos meus pais. Eu não me conseguia mexer, não precisava
de respirar, tinha os joelhos muito perto da boca, quase não sentia os braços
cruzados no peito e parecia-me que o meu pequeno corpo estava todo dentro de
um líquido e ocupava apenas um espaço que não teria mais de vinte centímetros
de comprido. Que estranho! Como se eu não passasse de um feto dentro da
barriga da mãe, foi o que pensei! Mas ouvia, ouvia... E que ouvia? “Ela: Achas
que vai resultar? Ele: Não tenho dúvidas. É uma droga que mata e não se
consegue identificar nem na autópsia. Está provado. Ela: Ouve Aníbal, devias
fazê-lo antes deste aqui nascer. Quero ser mãe em paz. Ele: Vou tratar do
assunto quanto antes. O Amílcar não vai chegar a saber que é pai. E tu? Estás
segura de que as propriedades estão mesmo em teu nome? Ela: Claro que estou.
Que raio de ideia que os teus pais tiveram. Aníbal e Amílcar! Que nomes tão
estranhos para dar aos dois filhos! Ele: Eram os nomes dos nossos dois Avôs.
Ela: Tens é de te despachar! Preferia ser viúva estando ainda grávida e
casar-me contigo uns tempos depois para poder dizer que és tu o pai. Ele:
Sabes bem que não sou. Até ver sou o tio e já não é mau. Depois, então posso
perfilhá-lo, juro-te. Ela: Aquele que está aqui dentro nunca o saberá. E vai
chamar-se Amílcar. Sempre é uma homenagem... Agora vira-te para lá e deixa-me
dormir”. Foi aqui que
acordei. Estas vozes parecem ainda soar dentro da minha cabeça. Não tenho a
menor dúvida de que eram as vozes de ambos. E não posso evitar que as
lágrimas quase rebentem nos meus olhos, coisa que já não me acontecia desde
criança. Que sonho terrível! Parece que alguma força desconhecida me quis
revelar uma verdade de que já suspeitava! Como é triste nunca ter chegado a
conhecer o meu pai! O meu verdadeiro pai! Chamava-se Amílcar como eu. E é
horrível a ideia de que foi morto pelo irmão dele, o meu tio. E também pela
minha mãe! Como é que eu vou atuar daqui em diante? Ficarei toda a vida
amarrado à lembrança deste meu sonho de uma noite de Natal. O testemunho que
ouvi de um ser que ainda não tinha nascido! Eu próprio, antes de vir ao
mundo! E agora? Que fazer? Quem me poderá dizer que este sonho não revela a
verdade? É que não foi só um sonho!... Foi como se me tivesse aparecido
durante a noite um fantasma a revelar a verdade!... Quem sabe se não terá
sido o fantasma do meu verdadeiro pai?... Espera lá,
Amílcar! Aqui há tempos vi na televisão um filme sobre uma peça de teatro
inglesa muito antiga que tinha uma história que podia ser... É isso!... Podia
ser parecida com a minha. Ser?... Ou não ser?... Eis a questão... Fontes: Blogue Local do Crime, 5 de Agosto de 2024 Secção O Desafio dos Enigmas [190], 1 de Dezembro de 2024 |
© DANIEL FALCÃO |
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