BLOGUE: CONCURSO
DE CONTOS POLICIAIS UM CASO POLICIAL NO NATAL O
CONTRATO | Fernando A.F. Aleixo O
FANTASMA DO HOTEL INFANTE SAGRES | Bernie
Leceiro A MINHA
NOITE DE NATAL | Paulo PRAZERES
DE NATAL | O Gráfico A
PRENDA DE NATAL DA MARTINHA | Paulo AMEM-SE
UNS AOS OUTROS | Inspector Moscardo YHWH
| L. Manuel F. Rodrigues CHEGARAM
OS PAIS NATAIS… | Abrótea A MORTE
DO PAI NATAL… | Paulo SONHO
DE UMA NOITE DE NATAL | Rui Mendes UM
CRIME NA NOITE DE NATAL | Paulo UM NATAL
DOS DIABOS | O Gráfico EM
FLAGRANTE – SHORT STORY | Investigador Canário NATAL A
DOIS | Don Naype FELIZ NATAL | Inspetor Al Vy Tã T A DEUSA
ESCANDINAVA | F. Mateus Furtado QUEM
TIROU OS PRESENTES? | Rigor Mortis BASEADO
NUMA HISTÓRIA VERÍDICA | Detetive Jeremias ERA
VÉSPERA DE NATAL | Arjacasa SONHOS
DE NATAL | Madame Eclética |
FELIZ NATAL Inspetor Al Vy Tã
T «A ideia não
era original, mas andava com ela na cabeça, há uns dias para cá, e à medida em que se aproximava o Natal. Lera num jornal,
que em certo país do Norte, o modus operandi tivera
sucesso, e ainda hoje não se conhecia o autor da façanha. Começara o seu dia,
por se “apropriar” de um uniforme de Pai Natal, no armazém dos funcionários
do Shopping, que tinham um “S. Nicolau” de serviço
em cada piso, e vários equipamentos em excesso. Olhava agora para ele, com
suas barbas postiças, como se lhe perguntasse? ‒
Estarás à altura de me ajudares? E respondia
para si próprio: ‒ Sim. Tirou um café
da sua máquina de casa, e observou da varanda, a cidade. Como era grande a
cidade. E populosa. E a azáfama das prazenteiras compras de Natal. Que
confusão. Que conveniente e lindo alvoroço, para o que iria fazer mais tarde.
Cismava e empreendia nas suas ideias, na chatice de cruzar mais um Natal,
mais uma passagem de ano, completamente só, caído na mais empedernida e rara
solidão. Recordava a zombaria com que o obsequiavam, quando estava com os
amigos, de barriga encostada ao balcão do bar: ‒ É pá! Ãh! Sempre a bailares com a mais feia. Pouco tempo
depois, descobriu que essas amizades, eram de
pechisbeque. De verdade, tinham apenas a solidez da torpeza, eram
robustamente falsas. Arquitetadas sobre embustes. E como uma desgraça nunca
vem só, veio a saber, por portas e travessas, que o seu nome fora adicionado
à lista negra. A misteriosa e escura lista, manobrada na penumbra, recôndita
de toda a gente, e a golpear de surpresa. Aproximava-se o momento de
executar, “o que iria fazer mais tarde”, uma vez que a conveniência e
propício alvoroço, tinham aumentado. Ora bem, já escolhera o banco. Já
escolhera a hora. E o engodo criador de surpresa e inibição. A farda estava
operacional. Tinha-a posta a limpar e engomar. O que faltava agora? ‒
Coragem! ‒ Gritavam-lhe aos ouvidos espectros pálidos e caiados, que se
soltaram do subconsciente, sem pedir licença. Para granjear
coragem, tinha guardado uma garrafa de rum, daquele que cortava a veia do
medo, como lhe transmitira a cultura dos seus antepassados. Mãos à obra. No banco, os
empregados ansiavam por encerrar o expediente, e irem para as suas casas
festejar o Natal. Era justo que uma vez por ano a humanidade, se recordasse
dos ensinamentos de Jesus Cristo, embora de um modo geral, não os
praticassem. O gerente
olhava pela vidraça da porta de entrada, e avistou um vulto, a atravessar a
praça, que lhe pareceu um Pai Natal, enfeitado com alguns farrapos da neve,
que começara a cair. ‒ Vem aí
mais um cliente. O último cliente, pessoal. ‒ disse
para os seus subordinados. Ele
aproximava-se, com uma fiel imitação de metralhadora ligeira, escondida num
saco, e um bolo rei, escondido no outro. Entrou sem
hesitar. O pessoal não pode deixar de reagir, com certa estupefação. Colocou
o bolo sobre o balcão, e disse alto e bom som: ‒ Boas
Festas! O pessoal
ficou mais atónito. Quando
começavam a sacudir a surpresa, de cima do seu ânimo alterado, viram então o
Pai Natal sacar da arma e dizer a frase já estafada e bolorenta: ‒ Isto é
um assalto! Logo depois,
atirou para o caixa, uma saca azul e ordenou com gravidade: ‒ Todo o
dinheiro lá para dentro. E depois
imitando um assaltante, do último filme de farwest
que vira: ‒ Com
calma, para ninguém se aleijar. A senhora da
limpeza, que estava num gabinete ao lado, ouvira tudo e deixara-se ficar.
Mandou uma mensagem no telemóvel para a polícia. Na divisão onde estava não
havia onde acionar o alarme. O caixa
despejou para a saca o dinheirinho que tinha à vista sobre a secretária, e
disse ao assaltante: ‒ Há
mais, no gabinete ao lado, onde está o cofre. ‒ Vá lá,
não se arme em espirituoso e acabe de encher. Não se esqueça que tenho os
seus colegas debaixo da mira. O sangue frio do
assaltante ‒ que ele próprio não sabia onde o tinha encontrado ‒
e à arma com seu aspeto de autêntica, mantinham quietos, como se fossem
estátuas de cera, o pessoal. No entanto calmos, sabiam que a mulher da
limpeza, que por acaso não se encontrava com eles, já teria de algum modo
alertado as autoridades. No outro
gabinete, o caixa despejou o dinheiro que a saca trazia, e acabou de a
encher, com os desperdícios da trituradora de papel. Feito isso,
atou-a pela boca. Entregou a
saca ao Pai Natal, que a pôs às costas, e que começou a correr, a fugir praça
fora, e acelerou, quando ouviu as sirenes dos carros da polícia a chegar. Um grupo de
vagabundos, que escutara uma conversa, em que asseguravam estar por ali a
queimar, um madeiro para o povo se aquecer, viu-o naquele preparo a fugir do
banco. Disse um deles
que parecia ser o chefe: ‒ Um Pai
Natal de saco azul às costas! E pensando que
tinha dinheiro, atiraram-no ao chão, mataram-no, agarraram o saco azul e
puseram-se em fuga, antes que os carros com a autoridade aparecessem.» O Agente Gazua
acabara o conto. Decidira estrear-se na escrita, apenas para passar o tempo
que tinha, entre a resolução dos casos. Andava a cogitar hã algumas semanas,
a cismar, e a amaldiçoar a sua musa inspiradora, que dera de frosques, cansada do aturar. E não sabia dela, nem onde a
encontrar. Imprimiu o
conto, e começou a lê-lo, em voz alta. Quando acabou
percebeu, que de facto não era nada que se apresentasse, e rasgou-o. Abriu uma nova
página no word, o seu processador de texto habitual. Começou a
escrever outro. Depois com
convicção, disse não se sabe bem para quem: ‒ Feliz
Natal! Fontes: Blogue Local do Crime, 5 de Novembro de 2024 Secção O Desafio dos Enigmas [196], 1 de Fevereiro de 2025 |
© DANIEL FALCÃO |
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